Dráuzio Varella tece o fim da vida em "Por um Fio"

Depois de relatar sua experiência como médico voluntário no que foi o maior complexo penitenciário da América Latina em Estação Carandiru, o médico Dráuzio Varella lança um novo livro, Por um Fio, voltando-se agora para sua longa experiência de cancerologista e reflete sobre o impacto da perspectiva da morte no comportamento de pacientes e seus familiares. "Foram três anos de escrita, em que busquei o oposto do Carandiru", conta. Varella conviveu cotidianamente com doentes graves, vítimas de câncer e de enfermidades decorrentes da aids, durante 30 anos, período em que presenciou histórias significativas e reveladoras da alma humana diante da proximidade da morte. De um lado, a reação dos que se descobrem doentes, que variava da surpresa desesperada ao silêncio conformado. E, do outro, a diferente atitude dos parentes, alguns muito dedicados, outros mesquinhos ao extremo. "Mas o grande mistério para mim era encontrar os motivos que tornam a pessoa que tem a vida ameaçada em alguém com felicidade plena; afinal, era freqüente encontrar pacientes com doença incurável que se diziam mais felizes", explica o médico, que arrisca uma explicação. "Acho que o instinto de sobrevivência começa a agir, a consciência da morte provoca um certo relaxamento na pessoa e estimula a necessidade de se viver bem o tempo que resta." Ao escrever as histórias, Drauzio Varella preferiu relacionar as mais antigas para evitar a identificação das pessoas, cujos nomes foram preservados. "Como as histórias mais fortes acabaram sedimentadas em minha mente, muitas durante mais de 20 anos, concluí que eram as mais representativas", conta o médico, que começou a escrever o livro em 1981, mas o interrompeu porque, aos 38 anos, não acreditava ter uma compreensão profunda da vida. Ubiratan Brasil TRECHO No início de janeiro, já em São Paulo, (meu irmão) Fernando acordou com dores na coxa. Dois dias depois fez uma cintilografia óssea, que mostrou metástase no fêmur e outro na bacia. Era o fim da esperança de curá-lo. À noite fui vê-lo em casa. Encontrei-o na sala com Martha, as meninas e Maria Helena, nossa irmã mais velha. Subimos para o quarto. Examinei-o e olhei a cintilografia: não havia dúvida, o tumor era mesmo agressivo; recidivava apenas quatro meses depois da cirurgia. Perguntei como ele estava. - Triste como nunca. Nós nos abraçamos e choramos como crianças. Haveríamos de nos separar de novo, agora para sempre. Foi terrível a frustração que tomou conta de mim ao perceber a inutilidade do esquema de tratamento concebido com tanto cuidado. Não que essa sensação me fosse desconhecida; infelizmente, o exercício da cancerologia pressupõe aprender a aceitar a derrota no final, a lidar com a dúvida mais dolorosa que pode afligir o médico diante do paciente que evolui mal a despeito de seguir à risca o tratamento prescrito: "Onde terei errado?", "Será que em algum momento deixei de fazer a escolha mais adequada?".

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