Drauzio Varella lança "Nas Ruas do Brás"

O médico Drauzio Varella, autoridade respeitada no Brasil e no exterior em seu campo, a oncologia, revelou-se, em 1999, um escritor maduro, hábil, e também um repórter de olhar incisivo e revelador. Desventrou o sistema carcerário e lançou sobre seus ?habitantes? uma luz perturbadora, registrada nas páginas de Estação Carandiru. O livro, lançado pela Companhia das Letras que continua a freqüentar listas de best-sellers, contabiliza até hoje 98 mil exemplares vendidos.Não contente com esse feito, Varella volta a surpreender. Pôs de lado a observação sobre a vida severa e feroz que testemunhou em anos de experiência no grande presídio paulistano para mergulhar nas águas da memória. Foi buscar em suas lembranças de infância a matéria-prima que moldou Nas Ruas do Brás (Companhia das Letrinhas, 80 págs., R$ 19,50). Nesse trabalho, o médico-escritor aventurou-se por um terreno movediço onde é muito fácil escorregar para o sentimentalismo ou a autocomplacência. Mas Drauzio Varella sabia onde queria chegar. Em sua nova obra, dirigida a crianças, não se encontram quaisquer traços desses componentes rançosos, que embotam tantas narrativas dirigidas aos pequenos leitores.O livro não nasceu em decorrência de uma decisão do escritor, mas de uma urgência. ?Quando estava terminando de escrever Estação Carandiru, comecei a sentir os sintomas da angústia mortal que muitos escritores dizem experimentar quando estão concluindo um trabalho.?Já que o único jeito de lidar com ela é iniciar uma nova obra, Varella começou a pensar em qual seria sua nova empreitada. ?No Carandiru, há uma publicação, Vira Lata, para a qual eu escrevo crônicas. Em uma delas, lembrei fatos de minha infância no Brás. Depois de ler esse texto, Maria Emília, da Companhia das Letras, sugeriu-me que escrevesse um livro para a coleção para crianças, Memória e História, em que os autores falam de sua infância.? Dessa sugestão nasceu Nas Ruas do Brás, que chegará às livrarias brasileiras na terça-feira.O livro é composto por 22 capítulos breves, nos quais Varella não rememora apenas sua infância. Embora sua intenção inicial fosse muito mais simples, em um formidável exercício de memória ele capturou as cores, os cheiros, os gostos e as formas que povoaram sua meninice. ?Queria contar como era o Brás na minha infância. Pensei em mostrar a essas crianças de hoje, que vivem fechadas em apartamentos, o que era viver na rua, pois nós vivíamos nela. Não pensei que seria um escrito autobiográfico. Mas, de repente, eu me vi contando a morte da minha mãe Não tinha contado essa história nem para minha mulher (a atriz Regina Braga), nem para minhas filhas, as pessoas mais próximas. E lá estava eu, pondo isso no papel para todo mundo ler.?Drauzio Varella integra uma ilustre galeria de médicos que se transformaram em escritores, do renascentista François Rabelais ao contemporâneo Pedro Nava. A experiência médica e o contato humano que ela demanda fornecem munição que, se canalizada corretamente, pode alimentar o artista que vive dentro do cientista. E, no caso de Varella, descortina-se uma abertura inesperada para a linguagem poética. Uma poesia sóbria, sem qualquer traço de lirismo romântico, que por isso mesmo impressiona o leitor.A memória de Drauzio Varella foi ativada pelo próprio bairro em que passou a infância. ?Quando decidi escrever o livro, voltei ao Brás com meu primo, Flávio. Muita coisa foi derrubada, mas ainda existem casas, prédios que vi em minha infância. Quando bati o olho nesses lugares, as lembranças começaram a retornar.? Foi assim que Nas Ruas do Brás ganhou colorido único e valor documental. As fábricas, os vendedores ambulantes de comida, os compradores de roupa, todos com seus pregões, convivem no livro com jogos na rua, travessuras infantis, descobertas marcantes e tragédias. Tudo embalado em uma linguagem econômica, sucinta. ?As origens são fundamentais. O contato com as raízes dá uma noção de autenticidade, de que se pertence a algo. Tive de lembrar do que vi, de meu olhar.?Drauzio nunca pensou em escrever ficção. ?Quando comecei Estação Carandiru, fui fazendo do jeito que sabia.? Nas Ruas do Brás repete e amplia essa experiência. E o escritor já tem novos projetos. ?Poucas coisas na vida se comparam ao prazer que o autor sente quando acaba de contar uma história, e percebe que fez isso da melhor forma de que era capaz.?

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