Drauzio Varella discute a violência em Paraty

A violência urbana foi o tema central da conferência do médico Drauzio Varella na Feira Literária Internacional de Paraty, neste sábado. "O que leva grande parte das crianças da periferia de São Paulo a entrarem para o mundo do crime e o que fazer?", perguntou, para em seguida apontar um caminho para a solução. O cerne do problema, segundo ele, é o excesso de crianças que nascem em famílias pobres. Logo, para ele a resposta é controlar a natalidade de forma séria.O médico criticou a forma como o Estado administra o controle denatalidade. "Nos postos de saúde, são distribuídas pílulas antiquadas, que muitas vezes causam enjôos e mal-estares". A conseqüência disso seria que as mulheres param de tomar o anticoncepcional e engravidam. "Essas mulheres pobres não querem ter muitos filhos, mas não são oferecidos aelas métodos eficazes e adequados".O médico lembrou que a taxa de natalidade está caindo no País como um todo, mas existe uma redução seletiva: somente estão tendo menos filhos as mulheres com maior grau de educação. Enquanto o Brasil tem taxa de 2,4, entre mulheres analfabetas essa taxa sobe para 5,6 filhos, equiparada à dos mais pobres países africanos.Varella, também autor do livro Estação Carandiru, lembrou ainda outro fator que faz crescer a violência urbana: as falhas do sistema carcerário. "O preso sai da cadeia mais pobre e mais violento". Ele defende que seja reformulada a forma de tratar aqueles que cometem crimes, dando mais oportunidades na readaptação à vida em liberdade. Ele conta que quandoescrevia Estação Carandiru, gostava de acompanhar a soltura dos presos, para observar suas expressões e palavras. Um dia perguntou a um recém-libertado para onde ele iria. "Campo Limpo", foi a resposta que ele ouviu. O médico quis saber como o rapaz iria atravessar a cidade, saindo da zona norte da cidade, onde ficava o presídio, para chegar ao extremo da zona sul. "Vou andando". Ele se compadeceu e deu R$ 10 para que o homem pegasse um ônibus até sua casa. "Mas como podem colocar um preso na rua sem dinheiro algum?", questiona. "Se eu fosse ele, assaltava alguém e iria de táxi para a casa", disse,arrancando risos da platéia.O outro autor a falar na tarde de sábado foi o psicanalista Jurandir Freire Costa, que falou sobre as mudanças na sociedade brasileira e criticou a atual perseguição dos ideais de beleza e juventude. "Ninguém mais quer ser velho, ninguém mais quer se comprometer com o passado", afirmou. "Isso causa desde bulimia e anorexia até perda de identidade".

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