Dramaturgos avaliam importância de prêmios e concursos

Quem são os premiados nos concursos dedramaturgia? Tal premiação influi na carreira do texto e/ou deseu autor? Em busca de respostas, a Agência Estado decidiuconversar com alguns desses escolhidos. Os entrevistados estãoentre os vencedores dos prêmios Funarte (MinC) e Carlos Carvalho- este promovido pela prefeitura de Porto Alegre (RS) -,selecionados por conta de sua abrangência nacional. Foram 15autores premiados entre 1988 e 2005, de oito Estados das cincoregiões do País. Vencer concurso leva uma peça ao palco? As respostas sãotão diversas quanto os textos premiados. "Para mim, abriucaminho", diz Carlos Correia Santos, de Belém. "Em 2003, tersido aprovado por um júri especializado serviu como selo dequalidade. Afinal, não existe crítica para um dramaturgoiniciante, não encenado", argumenta. No seu caso, logo após oconcurso foi procurado por um grupo interessado em encenar Biblioteca Mabu. A partir daí, vieram outros prêmios, outrasmontagens, e ele não mais parou. Mas até agora a história é outra para Edivaldo da Silva,de Brasília, 1.º lugar na categoria adulto, região Centro-Oeste,no Concurso da Funarte de 2005, com Laura. "Para quem estáiniciando ajuda porque dá visibilidade e credibilidade, mas oprincipal é a montagem, senão é prêmio de literatura", diz. "Eaí não depende só de interesse, mas das dificuldades de produçãoimpostas pelo texto. No meu caso, há quem queira encenar, masnão se conseguiu levantar a produção", diz Edivaldo. Com quatro peças encenadas, Sérgio Roveri, 1.º lugar naFunarte em 2005 por Com Vista para Dentro, pensa de formasemelhante. "Ter sido selecionado é um grande estímulo, mas amontagem (estréia dia 28 em São Paulo) depende de outros fatoresque vão do elenco ao interesse de um diretor." A publicação dotexto por si só - e isso os concursos fazem -, num país dedimensões continentais, não amplia o leque dos interessados?Mais um vez, as respostas variam entre sim e não. "Há uma diferença entre impressão e publicação", observaMarcos Barbosa, autor experiente e de sólida formação cultural."Os concursos imprimem as peças, mas a circulação e a divulgaçãosão muito restritas", diz ele, que tem vários textos encenadosno Brasil e no exterior. Mas há quem pense diferentemente dele,até dentro de casa. Sua mulher, Cláudia Barral, fala comentusiasmo das conseqüências de ter ficado em 3º lugar naFunarte, em 2003, com a peça Cordel do Amor sem Fim. "Recebipropostas de trabalho e o texto teve leitura dramática na Bahiae no CCBB de São Paulo, sob direção de Francisco Medeiros.Processo de escolha Naldo Alves, gaúcho radicado no Rio, é médico, ator,diretor, e atualmente dedica-se a criar programas educativosinstitucionais. Foi o 1º colocado em 1988 no Concurso CarlosCarvalho com Tortura não É Brinquedo, peça encenada em PortoAlegre e no Paraguai, esta última porque o livro bateu nas mãosda diretora Erenia López em uma viagem por Porto Alegre. "Foipor acaso mesmo", diz Naldo. Ainda assim, há o outro lado dessamoeda. "A publicação é ótima, claro, mas já flagrei duasmontagens no interior sem autorização e quase suspendi uma deVestir o Pai feita numa escola de São Paulo", diz o paulistaMário Viana. "Não é pelo dinheiro, mas por respeito e ética",diz. Se há um ponto onde todos convergem é a lisura noprocesso de escolha. Nos dois concursos em foco, salta aos olhosa mistura extrema entre autores experientes e iniciantes. Opaulista Dagomir Marquezi, de 53 anos, por exemplo, conseguiu aproeza de tirar o 1.º lugar no concurso da Funarte na categoriaadulto em 2004, na concorrida região Sudeste, com a peçaIntervalo. "Não tenho nenhum conhecimento nessa área de teatro o que prova não ser um concurso viciado", diz. "Eu estavacansado de fazer roteiros e projetos para cinema que não davamem nada e resolvi escrever uma peça sem muita esperança.Ganhei!" A trama transcorre durante as gravações de uma novela."É entretenimento, sem outra ambição. Tem produtor interessadono Rio, mas ainda não há nada de concreto." O gaúcho Gabriel Camargo, 1º lugar na região Sul noconcurso da Funarte de 2005, com a peça A Ufania do Pecado, épsiquiatra e aproveitou o prêmio para editar seu primeiroromance. Paulista de Penápolis radicado em Florianópolis, CarlosEduardo Silva, de 46 anos, tem um respeitável currículo comomaquiador de teatro. E ainda três textos teatrais premiados,entre eles A Filha da..., selecionado pelo MinC em 2000 e doisanos depois encenado no Rio com Marília Pêra no elenco. Quemfreqüenta o Centro Cultural São Paulo conhece o atentofuncionário Paulo Jordão. Pois ele tem mais de um texto premiado nenhum ainda encenado profissionalmente, entre eles Corrida aoCaos, 3º lugar no Carlos Carvalho em 2002. "Acho o concursoimportante, porque alguém pode ler e se interessar, como ElisRegina fazia com novos compositores", sugere Jordão. Evidentemente, a dramaturgia não é feita só de gênios -eles são raros, um a cada século, e em geral são assim avaliadosdepois de sua morte. Nenhum país do mundo possui uma cena vitalsem bons dramaturgos que a alimentem no dia-a-dia. No Brasil,eles existem e não apenas nos grandes centros, foi a felizconstatação desta reportagem. E suas obras circulam. O diretorcarioca Amir Haddad já montou peças do cearense Mapurunga.Textos de Mário Viana foram montados em Fortaleza e no Recife.Todos esses autores têm peças de indubitável qualidade, como DeBraços Cruzados, do cearense Emmanuel Nogueira, cuja poéticaremete a autores nordestinos de reconhecido talento, como GeroCamilo e Newton Moreno. Em conjunto, esses dramaturgos refletema riqueza cultural deste País, com obras que mereciamintercâmbio mais intenso, e constante.

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