Dramaturgia está em alta

O interesse crescente pelo teatro fora dos palcos, aliado à necessidade do público de um debate cultural mais atuante, incentivou a criação de duas séries dirigidas à dramaturgia. De um lado, a editora Civilização Brasileira, que lançou a coleção Dramaturgia de Sempre, com textos escolhidos pelo autor Alcione Araújo. De outro, a Hamdan Editora, que formou um seleto conselho editorial, encarregado de selecionar inéditas peças que vão alimentar a coleção Teatro Brasileiro."Trata-se de uma resposta, no plano editorial, ao crescente interesse, entre professores e estudantes de todos os graus, pelo fazer teatral", justifica Araújo, que notou a atenção durante as palestras realizadas, no ano passado, em universidades de todo o País. "Há uma demanda reprimida pelas discussões culturais e questões de arte".À medida que passava pelas faculdades, Araújo constatava preocupado, uma grave situação - a universidade descomprometera-se com três pilares básicos: formação do profissional, do cidadão e do homem. "Transformou-se, praticamente, em um espaço de adestramento para a produção", comenta o dramaturgo. "Hoje, é possível formar um médico, um engenheiro e técnico que nunca leu um romance, ouviu um concerto ou assistiu a uma peça de teatro", afirma. "Que espécie de ser humano é esse e que universidade é essa?"Uma das explicações levantadas por Araújo é o desaparecimento da paixão pelas idéias - o individualismo neoliberal isola as pessoas, o sucesso na arte é medido pelo resultado da bilheteria e o entretenimento é confundido com arte e a comunicação, com criação. Assim, Araújo procurou, com Dramaturgia de Sempre selecionar textos que contemplem a diversidade cultural do País. Os dois primeiros volumes escolhidos foram A Caravana da Ilusão, do próprio autor (uma decisão da editora), e O Inglês Maquinista, de Martins Pena, ambos volumes vendidos a R$ 10 cada um. As próximas obras serão O Abre Alas, de Maria Adelaide Amaral, e Édipo Rei, de Sófocles.Desconhecidos - Além de educar, o interesse da Hamdan Editora é divulgar textos desconhecidos. "Depois de tantos anos sem nenhum projeto editorial para peças teatrais no Brasil, sobram obras inéditas de qualidade", afirma Soraya Hamdan, diretora da editora e da coleção Teatro Brasileiro que, desde novembro de 1997, já lançou quatro volumes."Só publicamos textos inéditos: um texto encenado em São Paulo é desconhecido de nossos leitores do Rio Grande do Sul Ceará ou Rio de Janeiro", comenta. "Nossa preocupação é garantir, em cada volume, ao menos um texto ainda não encenado". A seleção das obras é feita por um conselho editorial formado por Sábato Magaldi, Paulo Betti, Vera Fajardo e Paulo César Bicalho, que coordena os trabalhos. "Eles se comunicam por e-mail, telefone, correio, fax, enfim, como é possível; mas raríssimas vezes há discordância", conta Soraya, que distribui gratuitamente 2.200 exemplares para encenadores, produtores, diretores de grupos, atores, autores e biblioteca de escolas. Os interessados podem cadastrar-se pelo e-mail hamdan@bhnet.com.br. Para manter a distribuição Soraya depende da movimentação do mercado cultural."O projeto inicial previa três volumes por ano, mas as últimas negociações que realizamos com possíveis patrocinadores permitem visualizar um futuro mais promissor", comenta a editora, satisfeita com o retorno positivo: o assédio sobre os autores das peças publicadas aumentou.Tanto Soraya Hamdan como Alcione Araújo enfrentam um problema comum, o dos direitos autorais. Araújo negocia a possibilidade de editar alguma obra de Plínio Marcos, especialmente Dois Perdidos numa Noite Suja. "Parece que os direitos foram vendidos como parte da obra completa; de qualquer forma, vou tentar a liberação com a família".Já Soraya não conseguiu publicar O Último Encontro, de Edla Van Steen, que estava comprometido com outra editora.

Agencia Estado,

07 de julho de 2000 | 16h51

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