Divulgação
Divulgação

Dramaturga Nina Raine participa do ensaio da peça 'Rabbit'

Autora é a grande novidade da encenação aberta que acontece hoje no Teatro Cultura Inglesa

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

21 de junho de 2012 | 03h12

Desde que estreou na dramaturgia com a peça Rabbit, em 2006, a inglesa Nina Raine tem seus passos acompanhados pela crítica especializada. Motivo: seus diálogos afiados, ditos por personagens ferozmente opinativos. Filha do poeta Craig Raine, Nina voltou à carga quatro anos depois com Tribes, o que a consagrou como representante da nova dramaturgia britânica. Com essa bagagem, Nina é a grande novidade do ensaio aberto que acontece hoje, no Teatro Cultura Inglesa, de Rabbit: ela participa de um debate depois da encenação. Sobre sua curta porém incensada carreira, Nina respondeu, por e-mail, às seguintes perguntas:

Nas suas peças, as palavras parecem ser maneiras de expressar o sexo, a inveja e o tormento do envelhecer. Por quê?

Creio que o sexo, a inveja e o temor de nos tornarmos adultos (é assim que eu o expressaria) são grandes temas para um drama - pois deles nascem conflitos internos e externos. Basta colocar o sexo numa sala e temos uma cena. Dois homens e uma mulher, ou duas mulheres e um homem, trata-se de algo inerentemente dramático! O mesmo vale para duas mulheres e dois homens... Na verdade, qualquer tipo de permuta vai render algo interessante para uma peça - assim como ocorre na vida. A inveja... novamente trata-se de uma força combustível entre personagens. Especialmente a inveja sexual. Eu acrescentaria que, quando a inveja produz a competitividade entre personagens, mais uma vez temos o pavio para uma cena. Mas eu debateria a expressão "tormento do envelhecer", como se isso sugerisse uma pessoa com medo de perder o brilho da juventude e preocupada com o botox, sendo que, na peça, creio que se trate de algo mais profundo - algo mais próximo da tristeza de deixar para trás um outro eu. E isso produz conflitos internos.

Seriam a amargura e o tédio os principais males da atualidade?

A amargura e o tédio... Bem, para uma classe específica de jovens profissionais, a ironia está no fato de, quanto mais as pessoas se tornam privilegiadas, mais capazes elas (às vezes) se sentem de vivenciar o medo interno, o autoquestionamento e o "pesar" que menciona. Mas me parece que esta amargura e tédio sempre existiram: basta pensar nos personagens de Chekhov. Eles têm tempo demais para pensar. E têm a sensação de que a solução precisa ser o trabalho duro, o trabalho manual árduo... e raramente seguem os próprios conselhos! Mas não se trata apenas de uma questão de autoindulgência. Creio que muitos humanos vivenciam uma sensação inesgotável de angústia interior. É por isso que tantas pessoas precisam da religião. E trata-se de algo relacionado ao fato de sermos seres humanos pensantes. Tudo se resume às grandes perguntas. "Por que estamos aqui? Por que estou aqui?" Minha teoria pessoal a respeito de minha própria geração é a de que isso está relacionado à nossa decisão de adiar cada vez mais a constituição de uma família. Então, quando temos filhos, alguns dos problemas da vida são solucionados ou respondidos ou simplesmente nos tornamos ocupados demais para pensar neles. Mas tenho certeza de que os pais e as mães com depressão pós-parto discordariam desta teoria.

Não é incrível o poder que a ficção tem de interferir na realidade e até criar novas realidades?

O teatro em especial pode ter um efeito imediato no público porque tudo é feito ao vivo. Assim, se a peça for boa, sob certos aspectos, a plateia realmente vê algo ocorrer diante de si, na mesma sala em que os espectadores estão. Não é real, mas, de certa maneira é real: são pessoas vivas, respirando. Os melhores resultados ocorrem quando o público reconhece algo que vê diante de si como o reflexo de algo existente dentro dele. Nunca podemos subestimar a gama de experiências a partir das quais os espectadores são capazes de traçar paralelos com elementos de uma peça, sendo que, no caso deles, trata-se de uma realidade. Em minha peça Tribes, que conta a história de um menino surdo que se sente excluído entre os parentes de audição normal, me pareceu quase hilário ver como as pessoas enxergavam suas próprias vivências refletidas no palco. Os gays sentiram que a peça contava sua história. Depois, durante um jantar, estava com uma amiga que tinha dado à luz pouco tempo atrás, e ela chorou dizendo ter sentido que Tribes ecoava o isolamento que ela tinha acabado de descobrir - e uma amiga negra a interrompeu, dizendo: "Ora, pensei que a peça traduzia a sensação de ser uma negra entre os brancos". Entretanto, creio que uma peça só pode ter tamanho impacto na realidade vivida pelos outros quando ela mostra uma realidade própria extremamente coesa e poderosa.

Os dramaturgos estão captando a realidade atual, tão complexa e rápida?

A realidade complexa e rápida de hoje é um ótimo ponto de partida para uma peça, mas me parece que é preciso refinar os conceitos e levá-los além. Caso contrário, o resultado é semelhante à televisão. E os mundos de muitos dramaturgos são versões do mundo atual, e não reflexos literais dele.

Qual desafio que você costuma procurar ao escrever uma peça?

Os desafios que procuro estão na tentativa de criar personagens ao mesmo tempo reais, engraçados e profundos. Então, procuro fazer com que eles respondam uns aos outros de maneira dinâmica. Tento também criar uma trama que transmita ao mesmo tempo uma mensagem metafórica e uma narrativa interessante. Trata-se de desafios consideráveis! Nunca tive o desejo de situar uma peça no futuro, nem em algum tipo de realidade fantástica. Mas, nunca diga nunca.

Os dramaturgos têm uma obrigação moral diante de seus personagens e do público?

A questão é interessante. Eu diria que nunca me senti "obrigada", ponto final. O que ocorre é que, por mais que isso soe pretensioso, os personagens adquirem sua própria realidade conforme os criamos, e procuramos tratá-los com respeito. Não queremos levá-los a fazer coisas que eles "não fariam". E começamos a nos preocupar com eles, de modo que não os ferimos à toa. Mas esta não é uma questão estritamente "moral". Me parece que simplesmente escrevemos a partir de nós mesmos. E, se algo nos parece doloroso de escrever, esperamos que seja também doloroso para o público assistir - num sentido significativo. Novamente, será que isto é "moral"? Talvez. Quando nos importamos com nossos personagens, esperamos que os outros também se importem. Quando um personagem age mal com relação a outro, esperamos que isso signifique algo para o público. Não precisamos dizer a eles: "Isto é mau, isto foi bom". Esperamos que, se o público for humano, ele sentirá isto por conta própria, assim como ocorre com os personagens.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.