Drama em família

Alma em Suplício traz conflito mãe e filha, e serve de modelo a Vale Tudo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Mãe dedicada, filha perversa. Se você conhece esse enredo e pensou na novela Vale Tudo, de 1988, não errou. O que talvez não saiba é que a trama de Gilberto Braga se inspirou num velho filme de Michael Curtiz, Alma em Suplício, agora em DVD pela Versátil.

A mater dolorosa, que na novela era interpretada por Regina Duarte, no original é vivida por Joan Crawford - uma ironia, pois Crawford ficou conhecida por seus papeis de mulheres duronas e de poucas amabilidades. Aqui ela é apenas a dona de casa Mildred Pierce, título original da obra, que foi refilmada como minissérie e exibida pela HBO com Kate Winslet no papel.

Mildred é uma mulher casada com um homem um tanto incapaz de garantir segurança à família. Está desempregado. Logo no começo, ele abandona a esposa e as duas filhas para morar com a amante. Mildred fica sozinha com as filhas, a menor delas bastante gentil e a mais velha dando mostras de ambição precoce. Veda é o modelo para Maria de Fátima, a vilã de Vale Tudo encarnada por Glória Pires.

A fome de luxo de Veda (Ann Blyth) parece insaciável, e se revela desde cedo. Para sustentar a família, Mildred arruma trabalho como garçonete. Sobe no emprego e logo abre negócio próprio, impulsionada por um advogado fanfarrão que lhe faz a corte, Wally Fay (Jack Carson). A sociedade será feita entre Mildred e um playboy arruinado, Monte Beragon (Zachary Scott), que dispõe do imóvel ideal para abrigar um restaurante.

Alma em Suplício é um belo exemplar de filme noir mesclado com melodrama. A dureza do noir é suavizada pela glicemia melodramática, não só no conteúdo, mas na maneira como a música é utilizada para amplificar a imersão emotiva, conforme o propósito do gênero. Aos diálogos afiados do noir, respondem os estados de alma do melô, gerando uma terceira forma, híbrida dos dois gêneros.

Esse tempero não anula a força desse filme, considerado um dos mais incisivos da carreira de Michael Curtiz. Mildred representa a ambiguidade moral do pós-guerra, em seu papel de self made woman que, no entanto, jamais consegue esconder a origem humilde. Essas convenções de classe, de uma sociedade que se modifica muito entre a crise dos anos 1930 e o final da 2.ª Guerra Mundial, são do tipo que dilaceram as pessoas. Querendo subir a qualquer preço, tropeçam nas próprias pernas e se destroem. Há, também, esse fundo moral (e um tanto hipócrita), numa história ambientada na aurora da sociedade de consumo triunfante, a nossa civilização argentária, na qual se afirma que o dinheiro não traz a felicidade.

QUEM É

MICHAEL CURTIZ, cineasta

Diretor húngaro, nascido em Budapeste, em 24/12/ 1886, e morto em Hollywood, no dia 10/4/1962, mudou-se para os Estados Unidos e ficou conhecido pelos filmes de aventura estrelados por Errol Flynn. Sua obra de referência é Casablanca (1942), o cult ambientado na 2ª Guerra protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

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