"Dr. T e as Mulheres" em DVD

Numa visão apressada, Dr. T e as Mulheres pode passar por um modelo perfeito de misoginia. Basta ver a confusão feminina armada em uma das primeiras cenas do filme, na ante-sala do ginecologista vivido por Richard Gere. São peruas texanas, de salto alto, casacos de pele e chapéus extravagantes, se digladiando por uma brecha da agenda do médico um fiapo de atenção das atendentes, um gesto de compaixão das enfermeiras. Pode-se pensar que Altman, o grande Robert Altman de Nashville, O Jogador e Short Cuts, esteja debochando das mulheres.Nada mais equivocado. Impossível não ver o carinho com que Altman trata suas personagens. Claro, o tempo todo esse carinho é temperado pela mordacidade, o que também é um traço do cineasta. E é verdade que as clientes do Dr. Sullivan Travis (Gere) são bem ansiosas, mas quem não fica ansioso na sala de espera de um médico? Ainda mais quando pululam dúvidas sobre reposição hormonal, menstruação atrasada, gravidez tardia, etc.Verdade também que as personagens se comportam com particular exagero. Mas aquilo é no Texas, em Dallas, justifica-se Altman. Terra do dinheiro, das aparências, do arrivismo, cidade que tem a maior atração turística no ponto de rua onde Kennedy foi assassinado. Ou seja, um prato cheio para quem é particularmente crítico em relação ao modo de vida do seu país.Nem por isso, a história do doutor Sullivan Travis se torna desumana. O personagem de Gere pode ser tudo, menos um médico ou ser humano desatencioso. Trata suas pacientes com ética e carinho, e sabe que afeto é tão necessário quanto progesterona em doses adequadas. É tão perfeito que sua mulher, Kate (Farrah Fawcett), adoece de uma estranha moléstia. Kate é feliz e realizada a ponto de não desejar mais nada. Por não desejar, cai numa forma rara de autismo.Com a mulher doente e as filhas levando vidas independentes e incompreensíveis, nada mais resta ao Doutor T senão se envolver com a treinadora de golfe vivida por Helen Hunt no papel de uma mulher independente.Enfim, o filme vai a essa situação em aparência paradoxal: Travis é um médico especializado em mulheres, que não entende nada delas. Sua capacidade de se surpreender com as reações femininas é comovente. Mas, como culpá-lo quando se lembra de que Freud chamava a mulher de o continente negro da psicanálise? Quer dizer, o mistério absoluto, o limite do conhecimento?Doutor T, como um psicanalista ignorante de si mesmo, passa o tempo tentando responder à clássica pergunta masculina: O que quer uma mulher? Para, no fim, descobrir que não vale muito a pena responder a essa questão. Pelo menos, descobre que a vida não se torna impossível quando se admite certa ignorância e que o mistério pode ser não aquilo que paralisa, mas o próprio sal da existência.Dr. T e as Mulheres. EUA, 2000. Direção de Robert Altman, com Richard Gere. DVD e vídeo da Paris, a partir de hoje nas locadoras. R$ 49

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