Dr. John cura enfermidades do ritmo

Pianista faz show vigoroso e revitalizado baseado em premiado disco recente na abertura do Best of Blues Festival

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2013 | 02h13

Com duas caveiras hamletianas sobre o piano, Dr. John, o curandeiro da tribo do blues (e também cantor, pianista e homem de medicinas antigas) foi o destaque da primeira noite do Best of Blues Festival, na noite de terça, no Golden Hall (uma portentosa casa de shows no interior do edifício World Trade Center, na Marginal Pinheiros). Cerca de 2 mil pessoas estiveram no local, que recebe hoje shows de John Mayall, Shemekia Copeland e Chris Cornell.

Dr. John, de 72 anos, apresentou-se logo após a abusada cantora Shemekia Copeland, de 34 anos (que teve o topete de abandonar o microfone e soltar sua voz a capela no espaço de mais de 3 mil m² com 15 metros de pé-direito). Shemekia fez bem o papel de esquentar a noite para os gigantes que viriam a seguir.

O show de Dr. John é "ancorado" na performance de sua inquieta trompetista, Sarah Morrow, que rege a banda e costura o roteiro com melodias e digressões no instrumento. Ele entrou se apoiando em seu cajado indígena, sacudindo patuás, brandindo a canção-saudação Iko Iko. Aos 73 anos, Dr. John se viu impulsionado para um som retrô no disco mais recente, Locked Down, produzido pelo guitarrista Dan Auerbach, do Black Keys (que lhe valeu o Grammy este ano).

Seu som passou por uma meia-sola e teve suas qualidades vintage potencializadas, escapando um pouco da atmosfera de funeral parade. Chegaram a colocar no seu palco um velho órgão Farfisa. As qualidades de funk e rock psicodélico se sobrepuseram ao blues propriamente dito. Isso fica evidente quando ele ataca uma versão de Let the Good Times Roll, um blues elétrico do qual B.B. King se apossou com mais propriedade. O que Dr. John fez com a canção foi retalhá-la em pedaços incandescentes, uma verdadeira deglutição antropofágica.

Já na terceira música, a contundente Revolution, dava para ver que a brincadeira fez bem a Dr. John, que passou a soar mais orgânico e climático (e um tanto anos 1970). Sua voz se alterna entre o estridente e o gutural, em canções como Such a Night e Food for Thot. Sua poesia é realçada por temas cristalinos, menos barrocos, como Kingdom of Izzness. Dr. John até mesmo se arriscou a tocar uma guitarrinha, coisa que não é muito do seu feitio.

Uma das maiores personalidades musicais da terra do jazz e do blues, New Orleans, Dr. John passa uma suave ironia em cena, como se tivesse visto coisas demais para se alarmar com pouco. Uma hora ele deixa o piano e vai até o centro do palco fazendo uma espécie de dança dos espíritos, e sua figura exótica, a trança de cabelos grisalhos, o chapéu, o terno de cores berrantes, nada disso parece fora do lugar. O homem é a autoridade do groove.

Com sua camisa havaiana, Taj Mahal, logo após Dr. John, entrou em cena com um trio para dar uma inestimável aula de democracia musical. Ele até brincou com a música de Jorge Benjor, Taj Mahal, cantarolando-a entre um número e outro. Disse, em português, que Caetano Veloso era seu favorito, e tocou todas as pontas da diáspora musical africana, indo de Corrina a Zanzibar (que ele cantou com Angelique Kidjo), passando por uma versão de bossa primitiva em Brazilian Sunshine.

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