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Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Livro do século 19 do escocês Robert Louis Stevenson foi adaptado para o nosso século com o Dr. Jekyll concorrendo à Presidência do Brasil

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2019 | 02h00

O título completo do livro é O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Foi escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, no século 19, e adaptado para o nosso século. O estranho caso narrado é de dupla personalidade: o respeitado Dr. Jekyll, que todos chamam simpaticamente de “Capitão”, tem um grande círculo de amigos e são estes que o convenceram a concorrer à Presidência do Brasil. Mr. Hyde é o oposto do Dr. Jekyll. Não só não tem amigos como espanta os amigos do Dr. Jekyll com sua truculência e seus modos à mesa. Nada disso teria muita importância – afinal, quem não tem amigos embaraçosos? – se Jekyll e Hyde não fossem a mesma pessoa. Eles constantemente se contradizem. E Hyde tem o irritante hábito de contradizer a si mesmo, argumentando que um dos direitos humanos fundamentais é o direito de voltar atrás. 

– Na campanha, você disse que não toleraria o nepotismo no seu governo.

– Pois então? “Nepotismo” é quando se dá cargo a um sobrinho, “nepote”, do papa. E não tem nenhum sobrinho de papa no meu governo!

– Qual é sua posição quanto ao tratado de Paris?

– A de ontem ou a de amanhã?

O problema da candidatura dupla Jekyll/Hyde era que nunca se sabia qual dos dois ia aparecer – e continua não se sabendo. Jekyll faz pronunciamentos perfeitamente sensatos, Hyde, ao contrário, pode chegar cuspindo fogo e assustando os vermelhos. Jekyll pode escolher um ministério no mínimo divertido, nada impede Hyde de preferir um gabinete maluco. Dizem que existe uma força-tarefa de prontidão em Brasília para garantir que Hyde não tenha muita liberdade para improvisar e dizer o quiser, e o seu lado Jekyll apareça mais. Mas sempre há o perigo de que o sensato seja o Hyde disfarçado. 

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