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Doug Liman e o jogo de poder

Diretor fala do filme com Nami Watts, admite que não é denúncia, mas diz que a imoralidade tem de ser discutida

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

Cinéfilo de carteirinha não minimiza a importância do cinema de ação como reflexo da conjuntura geopolítica. O ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, deu novo fôlego às tramas de espiões, que andavam defasadas após a derrocada do império soviético. Doug Liman formatou a série Bourne e depois assinou Sr. e Sra. Smith. O filme ficou famoso porque foi durante a rodagem que Brad Pitt e Angelina Jolie formaram o casal mítico hoje conhecido como "Brangelina". Elementos dos dois filmes aparecem em Jogo de Poder, o longa de Liman em exibição nos cinemas. A diferença é que A Identidade Bourne e Sr. e Sra. Smith são ficções assumidas e Jogo de Poder baseia-se numa história real.

 

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trailer Trailer de Jogo de Poder

 

No ano passado, em Cannes, não havia muitos filmes de Hollywood na competição. Jogo de Poder foi a exceção. Liman não ganhou nada, mas se Naomi Watts tivesse recebido o prêmio de melhor atriz, não haveria do que reclamar. É até interessante comparar como o tema do casal é tratado em Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami, também em cartaz - e pelo qual Juliette Binoche foi premiada. O filme de Kiarostami é mais complexo, mas o de Liman não é nulo e Naomi é intensa, além de bela, como Valerie Plane, a ex-agente da CIA cuja identidade foi revelada pela Casa Branca de George W. Bush como represália às críticas do marido dela, o jornalista interpretado por Sean Penn, ao presidente. Como obra de ficção, Jogo de Poder toma liberdades, mas, na essência, o que está na tela é real.

O sujo jogo do poder. Na coletiva, em Cannes, e depois num debate no American Pavillion, Liman disse que não fez o filme como denúncia. Foi honesto. "Não estaria acrescentando nada ao que se sabe sobre a manipulação da informação pelo presidente e seus aliados na imprensa, que levou às operações no Afeganistão e no Iraque. Nada disso é segredo. Mas é uma história que eu ainda acho que precisava ser contada. O que ocorreu com Val(erie) e seu marido não é só inconstitucional. É imoral. Já era o tema que percorria a trilogia Bourne. A ética da espionagem, ou na espionagem."

No filme, Valerie contesta as alegações da Casa Branca relativas ao manuseio de tecnologia nuclear por Saddam Hussein. Seu marido, transformado em observador, valeu-se de documentação para contestar a versão oficial. A retaliação foi imediata - e quando a identidade de Valerie como espiã vazou, a rede de espionagem que ela montara desmoronou. Nesse processo todo, o próprio casamento passou por uma rude prova. "Espero que o espectador se dê conta de que, de forma sutil, estamos subvertendo, de dentro, códigos de ação e espionagem. O tema do casal foi tratado como fantasia em Sr. e Sra. Smith. Aqui, é real. Não se trata de um documentário, mas com Naomi e Penn a emoção é genuína", arrisca o diretor.

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