Dostoievski é pop em filme, peça e livro

A vida na Rússia de Dostoievski não era para amadores. Por trás de palácios monumentais, a São Petersburgo de seu Crime e Castigo escondia cortiços imundos que abrigavam famílias inteiras consumidas pelo álcool, marcadas pelo crime ou destruídas pela prostituição. A São Paulo do século 21 tem ainda muito da São Petersburgo czarista. Isso explica o renovado interesse pelo clássico Crime e Castigo (1866), que volta à ordem do dia adaptado para diferentes mídias. Nada menos que um filme, uma peça de teatro e um livro de diferentes autores, sem ligação entre si, chegam agora ao público. Todos fazem um aggiornamento da tragédia de Raskólnikov, o assassino de Dostoievski. A peça, Crime e Castigo, do grupo Teatroendoscopia, entra em cartaz em setembro, no Centro Cultural São Paulo. O filme, Nina, de Heitor Dhalia, estréia em novembro. O Livro Zero (Editora Planeta, 215 págs., R$ 29,90), de Alexandre Plosk, já se encontra à venda. O fascínio que Raskólnikov exerce sobre os leitores, especialmente os criativos, é explicável. Dostoievski fez dele um protótipo do super-homem, um ser extraordinário que, convencido de sua excepcionalidade, decide seguir na contramão da sociedade. Todo artista ou escritor é, nesse sentido, um contraventor social, tanto como Raskólnikov. A diferença está no método: eles não precisam praticar nenhum crime para afirmar essa singularidade, e sim produzir obras de arte, seja uma peça política, um filme pop ou um livro alegórico. Tragédia é outra história. O recente e interessantíssimo livro Formas e Mediações do Trágico Moderno (Unimarco Editora, 216 págs., R$ 32) enfrenta a questão, respondendo como o Brasil aborda os grandes temas filosóficos da cultura européia a partir de uma perspectiva brasileira. O livro é uma reunião de ensaios de diversos autores. Um deles, Eduardo Sterzi, chama a atenção para o fato de que o modernismo legou para a cultura brasileira um sentimento antitrágico, como se os filhos de Macunaíma não fossem atingidos por desastres naturais ou tragédias. As três adaptações de Crime e Castigo (Editora 34, 568 págs., R$ 53) para o Brasil contemporâneo - tanto a cinematográfica como a teatral e a literária - são provas contundentes de que a nossa não é uma cultura festiva como queriam os rapazes da Semana de 22. O filme Nina mostra uma São Paulo cinzenta e suja, de aposentados à beira da miséria e jovens sem perspectiva, levados a se prostituir para viver. A peça Crime e Castigo encarcera os atores em caixotes, como os moradores de rua, e é dedicada a Celso Daniel, o prefeito de Santo André assassinado em circunstâncias misteriosas. O Livro Zero do carioca Plosk, embora embarque numa viagem metafórica, não deixa de abordar a violência dentro e fora da prisão, onde é confinado o publicitário Charles Schwartz, condenado a 25 anos por matar uma velha senhora a golpes de machado, como o fez Raskólnikov. Raskólnikov, em Crime e Castigo, é um estudante obrigado a abandonar a Faculdade de Direito por falta de dinheiro. Conduzido ao apartamento de uma velha agiota para empenhar seu relógio, ele resolve colocar em prática sua teoria de que existem, no mundo, duas espécies de homem: os extraordinários e os ordinários. Colocando-se entre os primeiros, ele decide "livrar" a sociedade dos últimos. Rouba e mata a velha usurária. E este é só o início de seu pesadelo moral.

Agencia Estado,

08 de agosto de 2004 | 17h37

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