Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Dossiê mostra contato entre Modigliani e o paulistano Wasth Rodrigues

Alex Ribeiro tem planos de fazer um livro ou um filme a partir de sua pesquisa

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

01 de novembro de 2012 | 02h12

Uma pintura de Modigliani na zona leste de São Paulo? No início da década de 1990, quando o ator e radialista Alex Ribeiro, de 56 anos, recebeu das mãos do amigo, ator, poeta e diretor Ruy Affonso Machado (1920-2003) seu acervo completo para preservar e dar continuidade à sua obra, estava entre livros, fotografias, documentos, desenhos e telas um óleo sobre cartão de 18 x 25 cm que o detentor afirmava ser um tesouro, um trabalho pintado pelo famoso artista italiano Amedeo Modigliani (1884 -1920). Não havia até então um certificado que atestasse a autenticidade da pintura, mas a história que a envolvia valia a pena ser contada.

"Fiquei tachado de trambiqueiro, mas essa obra estava há muito tempo aqui, sim, na Vila Formosa", diz Alex Ribeiro. Há seis anos o ator e radialista iniciou difícil périplo para adquirir o certificado de autenticidade, que depende da assinatura final do presidente do Instituto Modigliani, Christian Parisot. Ribeiro mostra à reportagem do Estado laudos de exames químicos e físicos realizados pela Universidade de São Paulo e pela Universidade Estatual de Londrina, que concluem que a obra poderia ter sido realmente criada pelo italiano, mas ainda falta o veredicto final. Entretanto, mais do que a possibilidade de a pintura ser a de um mestre do século 20, o óleo sobre cartão guarda em si outra curiosidade e reacende a história de amizade entre Modigliani e o pintor paulistano José Wasth Rodrigues (1891-1957).

Alex Ribeiro, que tem consigo um dossiê reunindo o material de sua pesquisa, chega até mesmo a afirmar que há muitos indícios de que o casaco marrom com o qual Amedeo Modigliani se autorretratou em pintura de 1919 (integrante do acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP) pertenceu a Wasth Rodrigues e foi dado de presente ao amigo. Textos, livros e imagens pesquisadas pelo ator e radialista mostram ainda outras aproximações entre os dois pintores, que se conheceram em Paris na década de 1910.

José Wasth Rodrigues, que usava como iniciais J.W.R, era figura ilustre da cena cultural paulistana - o poeta Carlos Drummond de Andrade até mesmo escreveu um texto em homenagem ao artista no Correio da Manhã na ocasião de sua morte. Criador de ilustrações para O Estado de S. Paulo, Wasth Rodrigues foi, inclusive, o autor do desenho do Ex-Libris do jornal, que traz o cavaleiro Bernard Gregoire. O pintor e desenhista ilustrou, também, obras de Guilherme de Almeida (escritor com o qual concebeu o brasão do município de São Paulo em 1916) e de Monteiro Lobato.

Em 1910, Wasth Rodrigues ganhou uma bolsa do governo paulista para estudar em Paris, mas sua viagem foi interrompida em 1914 por causa da 1.ª Guerra. No período, ele conheceu Modigliani, como é possível ver em textos de época publicados na imprensa e em livros que citam a amizade dos dois. "Na volta ao Brasil, Wasth trouxe alguns quadros de Modigliani para São Paulo, mas não sei onde estão", conta Ribeiro - e entre essas obras, está até mesmo um retrato do paulistano feito pelo italiano (imagem acima). Segundo o ator, Ruy Affonso Machado, integrante da primeira geração do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), adquiriu de Wasth Rodrigues a marinha que teria sido pintada por Modigliani por volta de 1898/1899, quando o italiano ainda estava em formação em sua cidade natal, Livorno.

À primeira vista, a imagem da obra não aparenta o estilo característico das paisagens e retratos que tornaram Modigliani célebre. Entretanto, Ribeiro defende que o pintor e escultor italiano teria pintado a marinha por influência de seu professor, o pintor Guglielmo Micheli. As análises da USP e da UEL afirmam que a paleta de cores do óleo sobre cartão condiz com a que Modigliani usava e o exame de raio X apresenta não haver outra pintura sob a marinha.

Por ora, conta Alex Ribeiro, a obra está guardada em um cofre em Paris, por motivos de segurança. "Mesmo que o quadro não seja autenticado, a história é boa", diz o ator e radialista, que registrou seu dossiê na Biblioteca Nacional e tem planos de fazer um livro ou um filme a partir de sua pesquisa.

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