Dose dupla de Felipe Hirsch nos palcos de SP

Os livros estão em Curitiba e o dono da biblioteca quase não os vê. O diretor Felipe Hirsch está longe de casa há 22 meses. Desde que A Vida é Cheia de Som e Fúria - peça que dirigiu com a Sutil Companhia de Teatro baseada no livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby - saiu do Paraná para ser assistida por mais de 50 mil pessoas em todo o País, Hirsch, de 29 anos, tornou-se o menino prodígio dos palcos brasileiros.Nos últimos dois anos, esteve à frente de nada menos do que de cinco peças. Na semana passada, estreou em São Paulo, Os Solitários. Na sexta é a vez da temporada paulista de Jantar entre Amigos, sucesso de crítica e público no Rio."´Morri´ com duas passagens internacionais na mão nos últimos dois anos por causa de trabalho. Mas o que mais sinto falta é da minha biblioteca", disse Hirsch à reportagem, na véspera da estréia de Os Solitários, depois de ter virado a noite acordado ensaiando o elenco, o grande elenco.Beckett aos 13 anos - Depois de Som e Fúria - montada com um cast desconhecido -, Hirsch passou a ser procurado por nomes consagrados da televisão e do teatro. "Eles assistiam à peça e depois me ligavam para perguntar se podiam trabalhar comigo em algum projeto." Foi assim, por exemplo, que Andrea Beltrão, Eliane Giardini, Renata Sorrah, Marco Nanini e Marieta Severo tornaram-se estrelas de suas peças.Dirigir atores consagrados e calejados não é problema para Hirsch. Seu contato com os palcos se deu precocemente. Aos 13 anos, ele gastou US$ 600 de uma poupança em seu nome para montar Esperando Godot, de Beckett, no Teatro Guaíra de Curitiba. "A peça foi censurada para 16 anos. Eu tinha 13. Imagina, eu não podia assistir à minha própria montagem", lembra-se rindo.Continuou no teatro amador até fundar sua própria companhia aos 19 anos, com o amigo e ator Guilherme Weber, até hoje a seu lado na Sutil Companhia de Teatro. "Não se trata de uma companhia de atores. Temos um núcleo técnico apenas - iluminador, cenógrafo, figurinista e produtor -, o que nos permite convidar atores para trabalhar conosco e aceitarmos convites", diz Felipe Hirsch.Pop - O primeiro espetáculo da companhia foi Baal, Babilônia, também em Curitiba. Seguiram-se outras nove até o estouro de Som e Fúria, que custou R$ 80 mil e excursionou pelo País inteiro. Som e Fúria tornou-se uma espécie de marca de Hirsch. Referências como o universo pop, a perda da juventude e o exercício da memória estão presentes também nos trabalhos posteriores, montas no Ridoo ou São Paulo."Sou pop. E ser pop é estar mergulhado nesse caos de informação e paixões ligeiras. Você hoje gosta de uma faixa do disco tal, amanhã está apaixonado por outra". Por causa dessa preferência Hirsch diz que é mais fácil encontrar textos na obra de autores ingleses e americanos.Mas há outra razão: embora tenha nascido no Rio, ele foi para Curitiba no início da adolescência e teve sua formação artística lá. "Seria desonesto da minha parte se montasse Ariano Suassuna e não Harold Pinter. Curitiba tem oito meses de céu cor de chumbo durante o ano, vivemos muito isolados", comenta o encenador sobre suas escolhas.A falta de bons textos da dramaturgia nacional também é apontada como dificuldade. "O problema é que quase não há teatro editado disponível". Para se reciclar, Hirsch viaja para Londres, Berlim e Nova York, onde assiste a peças e garimpa livros. Quer dizer, viajava, porque o excesso de trabalho e os inúmeros compromissos prenderam-no no Brasil nos últimos dois anos.Próximo dos 30 anos, o diretor diz que tem refletido muito sobre a juventude, que se tornou matéria de sua memória e que deverá estar sempre refletida nas suas próximas peças. Sim, o prodígio tem pelo menos dez projetos prontos para os próximos dez anos. Televisão e cinema também estão em pauta. "Talvez um roteiro para minissérie e, seguramente, a direção de um filme".

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