Dose dupla de atrevimento

Nestes tempos de uniformização robótica, uma argentina e uma francesa investem em leituras apaixonadas

O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h10

Belas, jovens e artistas de incontestável competência e talento. A violoncelista Sol Gabetta e a pianista Hélène Grimaud são o sonho de consumo de todo executivo de gravadora. Ok, falar em gravadora hoje em dia é meio arcaico, elas estão agonizando há bastante tempo, massacradas pelos streamings e downloads a preços incrivelmente mais baixos - mais justos, dirão os consumidores conscientes - do que os dos CDs físicos. Mas é fato que seus executivos continuam batendo cabeça em busca de fórmulas mercadológicas para alavancar as vendas.

O encontro das duas no verão europeu passado, no Menuhin Festival de Gstaad, na Suíça, com certeza foi arquitetado por algum marqueteiro. Neste caso, a jogada comercial não produziu um Frankenstein artístico, mas uma efetiva e fulminante paixão musical à primeira vista. Estas duas belas mulheres estão em estágios bem diferentes de vida.

A francesa Hélène Grimaud, que acaba de completar 43 anos, é contratada exclusiva e uma das estrelas maiores da Deutsche Grammophon. Brigou no ano passado com ninguém menos do que Claudio Abbado e não saiu arranhada (ela é poderosa mesmo). La Grimaud é desde já uma das mais aguardadas atrações da temporada 2013 da Osesp - será a solista do concerto n.º 5, Imperador, de Beethoven, em maio, em concerto regido por Stéphane Denève. A violoncelista argentina de Córdoba Sol Gabetta, que se apresentou há alguns dias na Sala São Paulo dentro da temporada 2012 da Sociedade de Cultura Artística, curte seus 30 anos e não mais do que dois ou três de fama súbita - aliás, plenamente justificada.

Além da química nos cabelos - uma mais para morena, outra loiríssima -, ambas estabeleceram também outro tipo de "química" quando tocaram em 2011. A parceria agora se fortalece com o CD Duo, recém-lançado no mercado internacional pela DG. "Senti essa química entre nós desde as duas ou três primeiras notas que tocamos juntas", diz Sol, em entrevista conjunta no encarte do CD. Hélène explica melhor: "A relação entre dois músicos pode ser incrivelmente intensa e íntima, muito mais do que entre duas pessoas que se amam mas não fazem música juntas". Fazer música de câmara a dois, diz Hélène, "é algo muito físico e sensual, é questão de ritmo cardíaco, pulso, respiração compartilhada. Com Sol, encontrei isso no plano humano e musical".

O repertório é eclético, porém expressivo. Repete uma das sonatas que Sol tocou em São Paulo com outro pianista, Bertrand Chamayou, a opus 40 de Shostakovich, obra de 1934, imediatamente antes de ele receber violentas pressões do regime soviético por causa de sua ópera Lady MacBeth de Mtzensk. Mas o CD propõe um itinerário diferente, partindo das três Phantasiestücke opus 73, de Robert Schumann, passa pela primeira sonata de Brahms, opus 38, vai à sonata em ré menor de Debussy e conclui com a citada sonata de Shostakovich.

Provocadas por uma pergunta meio idiota - "como vocês descrevem uma à outra?" -, dão respostas interessantes. Hélène diz que "Sol é o que seu nome indica: há muita luz, calor e vitalidade em seu toque, no sentido energético, como o sol mantém nosso universo vivo". E elogia demais sua parceira: "O que é a música? Uma expressão do amor. Quando Sol toca, capto isso como uma verdade". E Sol diz o que pensa de Hélène: "É minha contrapartida, justamente aquilo que preciso e me falta. Eu sou mais ar, ela é terra. Ela me faz fincar os pés na terra, nossa música oscila entre estes dois polos".

A audição do CD sugere que Sol e Hélène são instrumentistas que gostam do risco, dos excessos. Um atrevimento que costuma dar ótimos resultados nestes tempos de uniformização robótica. Quem duvidar, que ouça a apaixonada leitura da sonata de Brahms (experimente, por exemplo, o Allegro non troppo inicial). Ou então o final "Animé, léger et nerveux" da sonata de Debussy. Em termos da difícil manutenção de uma tensão do discurso musical por longo tempo, ouça o movimento inicial da sonata de Shostakovich, um Allegro non troppo composto em duas noites de insônia, segundo o próprio compositor, ainda impactado pelo rompimento com a sua primeira mulher, Nina.

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