"Dos Venenos o Mais Santo" prende o espectador pelo silêncio

Um homem recobra aos poucos os sentidos, sacudido por uma crise alérgica de espirros e percebe estar amarrado em meio a sacos de lixo. O ambiente ao seu redor lembra a moradia improvisada de um morador de rua, talvez o vão de algum viaduto. Na tentativa de livrar-se das cordas, desperta outro homem que dorme de bruços ao lado de um fogareiro improvisado numa lata. Mascarado - e armado - o vulto levanta-se e se aproxima do "refém", que solta um grito de reconhecimento e pavor. Esse é o ponto de partida da montagem Dos Venenos o Mais Santo, concebido por José Germano Melo para a companhia A Garagem, fundada com a atriz Lianna Matheus. Melo chama de "drama mudo" o espetáculo que na verdade tem pouquíssimas palavras e é mais eloqüente nos seus longos e retesados silêncios. Mais sugerindo que contando, ele aposta na imaginação do espectador para completar os "brancos" da história.Dos Venenos estreou na semana passada num pequeno espaço improvisado no hall do Centro Cultural São Paulo. Na platéia dá para ouvir os ruídos do trânsito na Avenida 23 de Maio, sem falar nos desavisados que passam pelo hall falando alto, problema que poderia - e deveria - ser evitado pela administração do CCSP. Ainda assim, na sessão de sábado, o espetáculo manteve suspensa a respiração dos espectadores. Com apenas 50 minutos de duração, foi aplaudido com entusiasmo. Aparentemente o público está diante de uma situação-limite, uma relação de vida e morte, passível de ocorrer a qualquer cidadão que transita pelas ruas das violentas metrópoles brasileiras. Mas o espetáculo reserva surpresas. Logo de início, o refém tem uma oportunidade de fuga. Mas prefere voltar. Para vingar-se? Curiosidade mórbida? O que terá ocorrido de tão terrível para que ele prefira o revide a salvar a pele? Como cada um de nós reagiria em situação semelhante? "O espetáculo é fruto de um longo processo de criação. Para nós, cada ato ali tem um significado muito preciso, mas fizemos uma opção pela abertura de sentidos para o espectador. Buscamos uma radicalidade: o espetáculo depende da interação com o público." Num texto sobre o espetáculo, Melo afirma ter desejado "traçar um panorama das relações contemporâneas". A frase soa ambiciosa demais para uma criação quase muda, de curta duração, a primeira de sua "carreira" de diretor. Mas se tal ambição não tinha mesmo como ser atingida, a ousadia de trabalhar sobre silêncios - a tagarelice costuma ser a marca dos principiantes - multiplicou significações.Trabalhando com algumas imagens poéticas - formadas com objetos como galhos, roupas, pacotes de comida -, o diretor cria cenas que se abrem para várias leituras. A princípio, o que existe são dois homens em uma situação animalesca, na qual toda ação é ditada pelos instintos. Apesar da tensão quase permanente entre os personagens, o jogo entre caça e presa vai aos poucos ganhando outras nuances. Numa peça com esse ponto de partida, seria muito fácil escorregar para o óbvio: tentativa de comunicação, compreensão mútua, humanização dos personagens e o desenlace, que poderia ser até uma inevitável tragédia. Melo preferiu fugir da simplificação. E o espectador vai para casa com algumas possíveis explicações para aquele rapto - real ou metafórico.Dos Venenos o Mais Santo - Drama. Concepção e direção José Germano Melo. Duração: 50 minutos. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 10,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Flávio Império. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 11/2

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