Dos primórdios do violão brasileiro

Série de shows e livro celebram os mestres do instrumento

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2010 | 00h00

No início do século 20, ser tocador de violão poderia até ser prova de má índole. "Não me lembro de quem era a frase, mas era alguém acusando uma pessoa e dizia assim: E se vossa excelência ainda tiver dúvida quanto à conduta do réu, observe os dedos dele e comprove que ele toca violão", diz o produtor musical e jornalista Alessandro Soares. Ele é curador do projeto Acordes do Rádio: 90 Anos do Violão Brasileiro, que começa terça no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio (Rua Primeiro de Março, 66, 21 3808-2020) e terá um show por mês até novembro e vem para São Paulo, só em 2011.

Quem abre a série é Eustáquio Grilo, que divide o palco com Ná Ozzetti (veja programação no quadro). Nos roteiros montados por Soares, há temas novos e inéditos, clássicos e temas obscuros de pioneiros do violão popular como João Pernambuco, Quincas Laranjeiras, Américo Jacomino. E outros mestres que se seguiram a eles, como Meira, Jayme Florence, Dino 7 Cordas, Dilermando Reis, Canhoto da Paraíba e Garoto.

Transformações. O violão, o instrumento que melhor se identifica com a MPB, só ganhou respeito da elite por volta de 1916, quando da visita do paraguaio Agustin Barrios. E só se tornou popular com o rádio, a partir de 1920, daí essa datação de 90 anos de sua trajetória, a partir da experiência no Recife, onde Soares nasceu. Na mesma época veio ao Brasil a espanhola Josefina Robledo, que se fixou em São Paulo e passou a dar aulas, trazendo inovações no aprendizado do violão.

"A partir daí, a imprensa do Rio e de São Paulo começou a tratar do violão de outro jeito, embora o preconceito não tenha sido vencido totalmente", lembra Soares. Esses episódios ele conta num livro que está escrevendo sobre a história do violão na música brasileira.

Ele também elaborou os minuciosos roteiros dos shows, cheios de curiosidades. Guinga, além do trabalho autoral, vai tocar e cantar a valsa Quando a Saudade Apertar (Meira). Entre os temas inéditos estão Choro Íntimo (Alfredo Medeiros), por Marco Pereira, e o frevo Murmurando (Nilton Dantas), que Bellinati vai tocar. As maravilhas de João Pernambuco ficam por conta de um especialista em sua obra, Caio Cezar.

"Embora eu queira reforçar o Nordeste, mostrando que lá não tem só frevo e maracatu, que tem uma galera antiga que compôs choros e sambas importantes, não tive a pretensão de ficar só numa região. É um painel diverso do violão do Brasil", diz Soares.

ACORDES DO RÁDIO: 90 ANOS DO VIOLÃO BRASILEIRO

20 de julho: Eustáquio Grilo e Ná Ozzetti

17 de agosto: Guinga, Lula Galvão e Mônica Salmaso

21 de setembro: Quarteto Maogani e Caio Cezar

19 de outubro: Marco Pereira, Mauricio Carrilho e João Lyra

16 de novembro: Duo Paulo Bellinati & Weber Lopes e Clara Sandroni

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