Dos palcos de Varsóvia para São Paulo

Krystyna Janda conversa pelotelefone com a reportagem. Está no camarim de um teatro emVarsóvia, preparando-se para a audição noturna de Quem TemMedo de Virginia Woolf?. Representa Martha, a personagemcelebrizada por Elizabeth Taylor na versão cinematográficaassinada por Mike Nichols. A peça de Edward Albee é uma das sete que compõem orepertório atual de Krystyna. Ela alterna Martha com uma Fedra,por exemplo. E com A Noite de Helver, a peça de IngmarVillquist que vem apresentar no Festival da Cultura Polonesa,terça-feira, no Teatro Sesc Consolação. Prepare-se para uma rara emoção. Quem viu, garante queKrystyna possui uma poderosa presença cênica. Domina o palco. Nocinema é, principalmente, a atriz de Andrzej Wajda. Fizeramfilmes importantes, que marcaram época. O Homem de Mármore, OMaestro e O Homem de Ferro. Obras essencialmente políticas,que retraçaram o stalinismo na sociedade polonesa, as relaçõesautoritárias no próprio meio artístico e o surgimento dosindicato Solidariedade, que mudou a história da Polônia, nosanos 80. "Wajda representa a fase mais politizada de minhacarreira no cinema", diz Krystyna. Há anos planejam novo filmejuntos. "Nos encontramos, discutimos projetos, ele me enviasugestões de roteiros, mas o filme não sai." Ela observa - etalvez exista um tom de lamento no que diz - que Wajda,ultimamente, tem estado muito ativo fazendo filmes de época."Gostaria que voltasse aos temas contemporâneos, com um grandepapel para mim." Queixa-se de que essa é sua dificuldade emrelação aos novos talentos do cinema polonês. "Eles falam sobreos problemas da sociedade polonesa hoje e isso é ótimo, mas nãoescrevem papéis para atrizes como eu, de outra geração." Fala da peça de Villquist. "É um texto sobre aintolerância, discute a permanência do nazismo na sociedadeatual." Não é um tema especificamente polonês. O neonazismo éuma praga que assola o mundo inteiro. Punks e skinheads podemser encontrados nas ruas de São Paulo. Nem todos serão nazistas,mas flertam com uma violência irracional e revelam uma talintolerância com o outro, o diferente, que isso sim é perigoso. A peça trata basicamente de três personagens. A mulher,que acolhe um jovem deficiente em casa, e o marido, adepto dasteorias raciais, que acha que será legítimo eliminar essesujeito. "Villquist é um autor muito talentoso", defineKrystyna. Ele surgiu há relativamente pouco tempo, cinco ou seisanos. Escreveu meia dúzia de peças. Estão entre os maioressucessos do teatro polonês, na atualidade. Após a derrocada docomunismo, o capitalismo instalou-se no país. "Mas ainda é umcapitalismo tímido", diz Krystyna. Ocorre que a economia estádevastada e as pessoas têm dificuldades para sobreviver na novasociedade competitiva. "Não posso queixar-me, pois vivo ummomento particularmente intenso, com todas essas peças. Faço oque quero, o que gosto e isso é bom, mas percebo os problemasdos outros." Diz que a sociedade polonesa mudou muito, e rapidamente,nos últimos anos. Acabaram-se a censura e o autoritarismo doregime. Foram substituídos por outros problemas. O brasileirosabe o que é isso. Enquanto sonha em voltar a filmar com Wajda,Krystyna revela. "Fiz um filme como diretora." É uma históriade amor, de relações, de sentimentos. O título? Não sabe dizê-loem francês, língua que escolheu para a entrevista. Diz que é oque está dentro da "prune" (ameixa). Só pode ser o caroço.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.