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Dormir no emprego

Trabalhar em casa pode ser bom. Mas vai-se o prazer que é voltar do trabalho

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2018 | 02h00

Não é que o olho da rua estivesse piscando para mim. Eu tinha essa coisa hoje um tanto rara chamada emprego, e mais que isso, um bom emprego. Acontece que, após décadas de carteira assinada, deu vontade de saber como me sentiria sendo avulso no mercado. 

Na verdade, o espelho deixava claro que eu já me expunha à inelutável aversão do patronato por cabelos brancos, não importando se dentro da cabeça as coisas ainda funcionem a contento. 

Por fim, sabia, por experiência própria, que um pedido de demissão pode trazer à alma um tipo refinado de gratificação: a alegria de haver tomado a iniciativa de ir às favas (a palavra não é esta, mas estamos num jornal de família) antes que a elas nos mandassem. Sensação tão boa que, desconfio, deve ter gente que pede emprego só pelo gostinho de se demitir.

Faz quase 18 anos, e, malgrado a falta de 13.º salário, férias remuneradas e fundo de garantia, ainda não me arrependi. 

Nos primeiros tempos, em lua de mel com uma liberdade inédita, cheguei a tripudiar sobre amigos escravizados a algum empregador, anunciando a eles a intenção de comprar umas roupas de trabalho. Sim, bermudas, camisetas, havaianas... 

Havia outros encantos na disponibilidade. Podia decidir que uma terça-feira era domingo e que um domingo chato já virou segunda-feira. 

*

O lado menos gostável do voluntário corte das amarras, que novos tempos converteriam em insensatez, foi me dar conta de que, tendo despedido as empresas em geral, precisaria agora transformar-me numa delas, condição para receber por aquilo que viesse a dedilhar neste meu teclado não musical. 

Cedo percebi que no mundo do trabalho as pessoas jurídicas são cada vez mais numerosas do que as físicas. Num exame admissional, já não se pede exame médico, e sim CNPJ. 

Na hora de constituir minha pujante firma, por pouco não resisti à tentação de me registrar na Junta Comercial como Humberto Werneck Limitado. Mal desconfiava do que havia de realidade na denominação galhofeira. Não tardei a descobrir em mim um patrão tirânico como jamais tivera, capaz de abolir qualquer fronteira entre o trabalho e o lazer, desses que ligam em fim de semana ou a horas mortas para falar do serviço.

Misto de moradia e escritório, minha base física acabou não sendo nem uma coisa nem outra. Terminado o expediente, se é que terminava, o trabalhador continuava no mesmo espaço. 

Como as empregadas de antigamente, eu dormia no emprego.

*

Bem que tentei estabelecer limites nítidos naquilo que, em meus 100 metros quadrados, fosse local de trabalho e, a partir de certo horário, local de moradia. Fracassei. Muitas vezes acordei de madrugada para beber água ou para operação inversa – e, no caminho de volta à cama, me batia alguma ideia, uma sacada, algo urgente a anotar ou a desenvolver – e, quando dava por mim, já passava do meio-dia e lá estava eu, de cueca, fazendo ranger minha cadeira de trabalho. 

Nessas ocasiões, ainda grogue de escrevinhação e sono, entrava no banho, mandava um café da manhã que a rigor já seria almoço – e, pelas 2 da tarde, tocava para essa instituição que abomino, o cinema de shopping, excepcionalmente bem-vindo porque ali era mais fácil encontrar um filme, qualquer um, prestes a começar. 

No guichê de ingressos, procedia com o automatismo daquele coelho de quermesse (em Minas se diria barraquinha) que, liberado da gaiola, entra no picadeiro e vai refugiar-se na primeira casinha que se lhe apresente, fazendo assim a felicidade do apostador respectivo. Não raras vezes me aconteceu aboletar-me na poltrona e só então constatar que tinha entrado em filme visto dias antes. 

*

Para não misturar os canais, cheguei a recorrer ao expediente risível de, toda manhã, vestir-me como se fosse para o trabalho, dar quatro passos no corredor, dobrar à direita – e, como quem tivesse atravessado um tanto de cidade, chegar ao escritório. 

Não durou muito essa comédia, felizmente sem testemunhas.

Sem testemunhas, sim – para o bem e para o mal. Como escriba, tiro proveito, não da solidão, com seu desamparo, mas da sozinhez, essa condição que nos permite dialogar sem interlocutor ou desafinar longe do chuveiro. 

Sucede, porém, que às vezes não me sinto boa companhia sequer para mim mesmo. No mais, quando o trabalho empaca, tendo a derrapar rumo a providências domésticas protelatórias. Aguar as plantas. Botar roupa na máquina. Dar um jeito nas estantes. Procurar algum papel, qual mesmo?

*

Escaldado por uma infinidade de propósitos que mal passaram disso, sei que é cedo para comemoração – mas eis que vejo estruturar-se em minha vida uma rotina nova, até o momento propiciatória. Incapaz de fazer conviverem trabalho e lazer sob o mesmo teto, estou empenhado, faz umas semanas, num modus vivendi semelhante ao de casais que, para preservarem a relação, escolhem ter cada qual a sua casa, num literal meu bem pra cá, meu bem pra lá. 

Não, não aluguei outro canto; digamos que, para efeitos lítero-jornalísticos, achei espaço num acolhedor poleiro coletivo. Estou sabendo que tem nome, coworking. E mais não digo, de medo de quebrar-se o encanto. Se dali não trouxer mais que minha prosa chinfrim, ao menos terei recuperado um prazer banal, para mim especialíssimo, o de voltar para casa depois de um dia de trabalho. 

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