Dori canta a tristeza pela perda dos pais

E por falar em saudade, Dori Caymmi vem exorcizar a dolorosa ausência dos pais com um dos álbuns mais tocantes de sua carreira, Mundo de Dentro. Hoje e amanhã ele faz shows de lançamento no Sesc Pompeia, acompanhado pelos craques Rodolfo Stroeter, Nelson Ayres, Teco Cardoso e Mosca. É o Pau Brasil sem Paulo Bellinati. Renato Braz, que canta na faixa de abertura do CD, Quebra-Mar, participa dos shows em outras três canções.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

O disco saiu em 2009 nos EUA e Japão, com faixas diferentes, cinco delas em inglês. A edição brasileira tem 12 parcerias de Dori com o antigo e fiel amigo Paulo Cesar Pinheiro (uma delas em trio com o irmão Danilo) e outra com Chico Buarque, Fora de Hora, gravada antes por Nana Caymmi. Como apropriadamente diz Maria Bethânia num carinhoso texto de apresentação, o disco tem "linda música, poesia inspirada, amizades novas, velhos amigos, vozes raras, timbres e intenções belíssimos". Esse "encontro de pura luz" dos parceiros é significativo de quem tem "saúde de já poder dizer só o que mais interessa". "Paulinho escreve lindo", endossa o parceiro.

Dori diz bem-humorado que há 50 anos dá a mesma entrevista e revela desencanto em relação aos caminhos da música, da política e da situação geral do Brasil - ele que é radicado nos Estados Unidos desde 1989. "Tenho saudade do Brasil utópico, não vivo nesse de agora. Esse descaso já cansou minha cabeça. É difícil compor assim, se não tiver incentivo, como as canções que fiz para filmes de Fábio Barreto e Ana Maria Magalhães."

Desencanto. Para ele, que já ficou "pendurado, cobrando da vida", com a perda de Tom Jobim, em 1994, o panorama se agravou com a morte de Dorival Caymmi e Stella Maris, em 2008. "Não consigo entender a morte das pessoas", diz. As canções do introspectivo Mundo de Dentro, dedicado a eles, são reveladoras nesse aspecto.

Delicadeza é a mais específica para os pais e a mais comovente de um CD em que ele mais uma vez se equilibra na pauta musical que cruza Rio, Minas e Bahia. E reconhece como triste. Não é para menos. Faixas como o alegre e intrincado frevo Chutando Lata quebram o traço de melancolia nostálgica, com a participação do especialista Edu Lobo.

A ideia era fazer mesmo "um disco bonito para os velhos ouvirem onde estiverem". "Se bem que acho que eles estão no cemitério São João Batista mesmo", brinca o cético Dori.

Dori Caymmi. Sesc Pompeia. Teatro (358 Lugares). Rua Clélia, 93. Tel. 3871-7700. Hoje, às 21 horas. Amanhã, às 18 horas. Ingressos: R$ 20

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