Dores e poesia de um velho vampiro

Contos, versos, aforismos e anedotas de Desgracida flagram aspectos da mitologia em torno de Dalton Trevisan

Alcides Villaça, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

Os contos de Dalton Trevisan investiram sempre na representação expressionista, singularmente lapidar, do cotidiano das múltiplas criaturas sofridas e despossuídas de sua cidade, Curitiba. Esses contos compuseram um universo personalíssimo: a cada livro publicado, reafirma-se uma maneira obsessiva de contar histórias, pela qual os fatos narrados em bruto podem valer menos que as sugestões e as elipses que eles supõem. Para sublinhar o misto de agressividade e naturalidade que marca a representação de um mundo doloroso e violento são fundamentais, como espécie de contraponto cúmplice, os valores da decisiva classe média curitibana. É nesta, afinal, que já estariam os primeiros leitores de Dalton Trevisan; era ela que, com zeloso senso de autopreservação, dava as cartas de um moralismo e de um conservadorismo assumidos em estado de quintessência; era ela, enfim, a antagonista implícita e impassível, a ser confrontada com a exasperação das vidas recusadas e dadas como invisíveis nas sombras da cidade.

Se a arte desse autor, mais rebelada que compassiva, impulsionou sua ficção para muito além das plagas curitibanas, na envergadura já reconhecida, nem por isso deixou de fixar ambíguas raízes, a um tempo venenosas e dependentes, no subsolo violento da urbe tão polida à superfície. A ambiguidade, esteticamente poderosa, está em que a pancada das análises fulminantes e detalhistas do cotidiano mais bruto, aparentemente secas na recusa ao comentário, faz ressoar doídas emoções, patéticas e primitivas, nos limites da sexualidade, da dor física e moral, da carência, da doença e da morte.

O tempo voa, Curitiba e Dalton Trevisan já não são os mesmos: prova-o este novo livro, Desgracida, miscelânea apresentada em duas seções, as "Ministórias" (quase o livro todo) e as "Mal traçadas linhas" (segmento final, de cartas). Entre as ministórias acham-se, de fato, alguns contos trevisanianos cada vez mais sucintos, mas também aforismos, piadas, poemas, comentários diversos, notas de gaveta. O autor acusa, aqui e ali, a ausência de sua antiga cidade: "Curitiba já não tem lugar pra tanto louco", "Esta cidade, quem diria, é cada vez mais povoada pelos teus mortos"; e sugere, também, sua fragilização pessoal na figura de um "pobre Sansão tosquiado", ou se deixa surpreender como um orfeu traído: "Ao se voltar, sombras efêmeras já se foram. Você ouve ainda as suas vozes em surdina." É quase um gênero literário pessoal que se despede, juntamente com o espaço e as criaturas que o provocaram. Como a sugerir, agora mais ironicamente que nunca, a matriz de seu próprio estilo, a certa altura o autor dá presença a quem está "varrendo sempre / as mesmas folhas secas / das mesmas velhas árvores / nesta mesma cidade fantasma". Consente que seu mundo mudou, o que não o impede de vibrar e fazer ouvir um encantado piano: "- Assim fechado - ouça! - ele toca ainda para mim."

Poesia e prosa. Os leitores mais fiéis de Dalton Trevisan não se inquietem: ainda que num extremo de minimalismo, encontrarão nas ministórias os cruéis diminutivos, o sadismo fatalizado, a violência consentida, a dor de corno, a funda humilhação, a solidão, o repertório todo das personagens desgracidas, com a notória economia de palavras. Há peças a serem consideradas em futuras antologias, como o conto Iluminação: no final dele, uma "coxa entrevista" e uma "nova epifania" juntam-se num anseio de perpetuidade e renovação, vivido num velório que expõe a mórbida degradação dos antigos encantos de uma mulher. Em Marishka, mulher-mito e vingança contra todos os envelhecimentos, o narrador/poeta celebra: "Marishka transcende o tempo. É um diálogo de Platão, broinha de fubá mimoso, um poema de Rilke, o coração da alcachofra, girassol de Van Gogh, o cantiquinho da corruíra, um conto de Chekhov, o som de uma só mão que bate palmas." Não estão exemplarmente representadas, nessa quitanda de artes e condimentos, as obsessões e aspirações de Dalton Trevisan?

Nos poemas em versos, a arte do contista traz para a linguagem da poesia o corte sintético cultivado na prosa, acrescido de mais marcada pulsação rítmica (Odores e Perfumes). E há, num fragmento em prosa, ressonância lírica de um Manuel Bandeira (O Rabinho). Já as piadas (que lembram - intencionalmente? - as das brochuras de rodoviária) e alguns aforismos (que fazem efeito em conversa de boteco) não têm função muito clara no conjunto do livro.

Por fim, as cartas, suas vivas cartas de crítico/leitor que se comove com Chekhov, aplaude Rubem Braga, Pedro Nava... mas se indispõe com o Guimarães Rosa do Grande Sertão. Razões para isso? Prendem-se ao modo como cada autor elabora sua própria mitologia. A de Dalton continua a expor-se, agora com acentos de cansaço, nas suas bem cultivadas flores do mal.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP

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