Dores do crescimento

Numa festa de fim de ano realizada no arborizado jardim dos fundos de um conhecido, caminhei na direção da professora de nosso filho de 5 anos no jardim da infância para agradecer a ela pelo bom trabalho e pela atenção dedicada ao longo do último ano. Ela sorriu e fez comentários simpáticos a respeito do nosso menino, e então balançou a cabeça, gentilmente. "Estou preocupada com o próximo ano dele, sr. Siegel", disse ela. "Temo que ele esteja atrasado em relação às demais crianças." Ela estava sugerindo implicitamente que ele fosse "deixado para trás" - ou seja, que repetisse um ano de jardim da infância em vez de avançar para o primeiro ano do ensino fundamental -, algo que a escola não pode fazer sem nossa permissão. Fiquei completamente exasperado.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h10

Assim como os parceiros de um casamento que começa a dar sinais de desgaste deslocam para os filhos a ansiedade que envolve o relacionamento, os habitantes dos Estados Unidos - uma potência mundial que trilha o limiar da decadência - estão deslocando sua ansiedade em relação à sociedade para... as crianças. Em vez de dirigirem sua fúria contra os gananciosos banqueiros, especuladores imobiliários e outros que quase destruíram o país quatro anos atrás, especialistas e políticos têm travado uma guerra contra os professores das escolas públicas. E os administradores e professores das escolas públicas, com as costas contra a parede, têm exercido uma pressão tremenda sobre os alunos.

Afinal, se o país está se tornando mais avarento, mais desonesto, mais autocentrado e mais distraído, é impossível que a culpa seja dos reis e rainhas da política e da cultura. Claro que não. (Um jogador de beisebol dos Boston Red Sox recebeu recentemente um contrato anual no valor de US$ 14 milhões e queixou-se de ser tratado com desprezo, já que a oferta não foi de um contrato de 3 anos. Todos deram de ombros.) E os culpados não podem ser os pais, que já enfrentam dificuldades o bastante na tentativa de não sucumbirem à atmosfera geral de gratificação instantânea e se tornarem crianças eles mesmos. De jeito nenhum. Não, os culpados devem ser os professores.

O indiciamento do ensino público é um fenômeno estranho, levando-se em consideração que a acusação costuma ser feita por formadores de opinião que mandam seus próprios filhos para escolas particulares. Sob muitos aspectos, a guerra contra as escolas públicas é mais um sintoma da marginalização da classe média, já que a solução para a "crise" nas escolas públicas é a criação de escolas charter - que tiram dinheiro das escolas públicas. As escolas charter são instituições independentes (em geral, empresas cujo objetivo é o lucro) que aceitam recursos do governo, mas não são subordinadas às autoridades públicas. Em troca desta independência, as escolas charter prometem notas mais altas nos testes.

Como resultado da expansão das escolas charter, os pais de classe média que não têm a sorte de inscrever seus filhos numa escola charter são obrigados a pagar impostos prediais mais altos para compensar pelos recursos perdidos. Precisam também suportar escolas públicas com professores desmoralizados, instalações deterioradas e um grupo menor de estudantes brilhantes.

A guerra contra os professores das escolas públicas teve início em 2010 com o lançamento de Waiting for 'Superman', um documentário que execra o ensino público e mostra as escolas charter como a salvação. A heroína do filme é Michelle Rhee, que na época era chanceler das escolas públicas da capital americana, Washington. A própria Michelle tinha travado uma guerra contra o sistema público de ensino, instituindo a demissão em massa de professores e diretores, valendo-se quase exclusivamente dos testes padronizados para medir o progresso dos estudantes, e associando os salários dos professores aos resultados obtidos pelos alunos nos testes. Pouco tempo depois, ela foi acusada de manipular os resultados de testes, renunciando ao cargo. Mas a febre das escolas charter e sua sacralização dos testes padronizados continua, mesmo enquanto estudos respeitados mostram que os estudantes não obtêm resultados melhores nas escolas charter, apresentando até uma ocasional queda de rendimento.

O "ensino voltado para as provas" se tornou o espectro que assombra o ensino americano. Os alunos são ensinados a ler, a escrever e a fazer contas assim como os engenheiros aprendem hidráulica. Não existe mais espaço para os alunos cuja criatividade, intuição e empatia sejam mais fortes do que a mera inteligência formal. Se o ensino voltado para as provas tivesse sido o método universal de ensino desde o início da civilização ocidental, poetas e romancistas de Catulo a Dante, passando por Shakespeare e Kafka, nunca teriam saído do ensino fundamental. Toda a era romântica teria sido considerada produto do desenvolvimento retardado.

O efeito do reinado dos testes padronizados sobre os pais tem sido incalculável. Mães e pais já preocupados com o autismo, os pesticidas, a comida pouco saudável, as embalagens tóxicas, os brinquedos tóxicos, o papel das mulheres na sociedade - mães ou profissionais? - e os perigos e idiotices da internet têm agora algo para cristalizar sua ansiedade: a educação de seus filhos. Alguns pais ficam tão histéricos que optam por "deixar para trás" as crianças. Trata-se da prática de esperar um ano adicional antes de levar a criança para o jardim da infância na esperança de que o tempo extra dê a ela alguma vantagem competitiva. Assim, em questão de poucos anos, a média etária da criança americana no jardim da infância será de 32 anos. As pessoas chegarão à fase adulta em algum momento perto dos 50 anos. Pensando bem, hoje em dia, isto não parece muito distante da realidade.

Não culpo a professora de jardim da infância do nosso filho por querer que ele fique para trás, por mais que o garoto apresente nos testes resultados bons, mas não espetaculares, e apesar de seus talentos criativos serem óbvios. Ela é uma professora talentosa e decente que está sob imensa pressão para melhorar a nota média da escola nas provas, ao ponto de ser forçada a ensinar aos alunos do jardim da infância um conteúdo que está muito além do nível deles. O problema fundamental do ensino público americano não está nos professores, e sim no fato de o sistema de ensino ser administrado por pessoas que passaram a vida obtendo notas excelentes nos testes padronizados, mas que carecem de um mínimo de inteligência real - e de coração. Nos Estados Unidos de hoje, os adultos responsáveis precisam crescer, e as crianças das quais eles cuidam precisam parar de serem obrigadas a crescer rápido demais.

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