Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Dor e Júbilo na tela

A obra restaurada de Portinari, que o artista não pôde inaugurar na ONU, é exibida em São Paulo pela primeira vez

Laura Greenhalgh - O Estado de S.Paulo,

05 de fevereiro de 2012 | 07h00

A colocação dos painéis de Candido Portinari na ONU foi pensada de forma estratégica, com o intuito de reforçar a mensagem da obra: ao entrar no hall, depara-se com a obra Guerra; ao sair, depara-se com a Paz. Sempre foi assim e continuará sendo quando os trabalhos voltarem para a sede da organização, cuja reforma deverá terminar em 2013, se não houver atrasos. Até lá, Guerra e Paz ficará sob a guarda do Projeto Portinari, criado por João Candido nos anos 70. Do ponto de vista da ONU, a vinda dos painéis ao Brasil foi só vantagem: estão incluídos na "guarda da obra" todos os custos de remoção, transporte e quaisquer itinerâncias que os painéis possam vir a ter, além de um seguro formidável e do restauro total das peças.

"Aceitamos estas condições e mais uma: a ONU exigiu o envolvimento do governo brasileiro em todo o período da guarda", explica João Candido. Além da atuação de Lula, houve o empurrão providencial do vice-presidente José Alencar, morto em 2011. "Ele próprio expediu carta ofício a todos os presidentes de estatais, pedindo que me recebessem para que eu lhes apresentasse o projeto de restauro e o plano de exibição da obra, inclusive fora do Brasil", acrescenta. O restauro, financiado pelo BNDES, ficou em R$ 7 milhões. Quanto à itinerância, há tratativas com Noruega, Japão, China.

Tecnicamente, o restauro de Guerra e Paz é classificado como "moderado". Em meio século no hall da ONU, vizinhos de grandes paredes envidraçadas e sujeitos à incidência diária dos raios ultravioletas, os painéis sofreram um efeito clareador dos pigmentos. Em contrapartida, houve pouco descolamento nas camadas de tinta. Já na junção das placas havia sujeira acumulada. Enfim, boa parte do restauro consistiu no uso de esponjas especiais para remover as marcas do tempo. A equipe que fez o trabalho contou com 18 técnicos liderados por Edson Motta Júnior e Claudio Valério Teixeira, professores da UFRJ - filhos de pintores contemporâneos e amigos de Portinari, eles também comandaram o restauro do Municipal do Rio.

O que se sabe da execução dos painéis, nos anos 1950, dá conta de que Portinari montou uma grande oficina no galpão da Tupi, organizada no dia a dia por Enrico Bianco, seu assistente. Além da volumosa produção de estudos, mandou fazer duas maquetes, trabalho bastante caro à época. Estas maquetes hoje pertencem à coleção de arte de um conhecido banqueiro brasileiro, que se recusa a emprestá-las para qualquer exposição. João Candido prefere não citar o nome do colecionador, mas também não esconde a decepção: "De novo tentamos trazer as maquetes para a mostra e recebemos uma negativa".

Portinari não saiu da maquete para a escala muralística num movimento de simples transposição. Optou por pintar os painéis com pincéis menores, de tal forma que cada parte deles é um quadro em si. Ou seja, é algo para se ver de perto também. "Estava ali para executar dois painéis gigantescos quase da mesma forma como pintava quadros de cavalete: corrigindo, raspando e recomeçando quantas vezes julgasse necessário", relembra Maria Luiza Leão em depoimento para um livro sobre a obra.

Especialistas dizem que os painéis marcam o clareamento da paleta do pintor. "Não sou expert no assunto, mas pensando nisso agora, acabo me lembrando de dois acontecimentos: na época da pintura dos painéis, mudamos da casa no Cosme Velho, que era escura, para um apartamento ensolarado no Leme, à beira-mar", conta João Candido. "E foi a fase que meu pai se entusiasmou com a pintura de Jacques Villon." Cubista francês, Villon era irmão de Marcel Duchamp e morreu um ano depois que o brasileiro. Portinari também evocou mestres renascentistas ao pintar Guerra e Paz - Giotto na composição e mesmo nas cores, Paolo Ucello, nas cenas de batalha.

Os estudos foram comercializados: "Afinal, meu pai vivia da sua arte". Braços erguidos em desespero, pietàs lacrimosas, mãos escondendo rostos, feras, cavalos, guerreiros, crianças, semeadores, dançarinos, as partes do todo deram origem à produção impressionante de estudos espalhados pelo mundo.

Ao se propor a fazer o catálogo raisonné de Portinari, João Candido empreendeu uma busca tremenda para localizar os trabalhos do pai. Contou até com a Fundação Roberto Marinho, que colocou chamadas na Rede Globo informando que o projeto buscava o paradeiro de obras. Muitas foram localizadas, mas houve também a ação perturbadora de falsários, trazendo à tona Portinaris de enganação. Ainda hoje se buscam quatro estudos de Guerra e Paz de maior dimensão. João Candido pede que o Caderno 2 mostre fotos destas obras: "Quem sabe alguém nos diz onde estão". Nas próximas edições de catálogo, cerca de 100 trabalhos recentemente localizados e de autoria confirmada, passarão a figurar no levantamento geral da obra.

O Projeto Portinari já andou por 20 países. Houve um tempo em que até as lojas da Varig pelo mundo funcionaram como "sucursais" da entidade. "Tem sido uma aventura, com a solidariedade de muita gente", admite o filho. Hoje, quando essa busca vai se tornando mais rara e difícil, João Candido prefere mudar de circuito: tem subido de barco os rios brasileiros, mostrando "clones" das obras do artista. Já subiu o Purus. Vai subir o São Francisco. Sempre fiel ao preceito paterno de que "pintura que se desvincula do povo não é arte".

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