Naomi Adiv
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Lúcia Guimarães
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Dor e alegria na arte de narrar a vida dos outros

Biógrafos de nomes como Virginia Woolf, Louis Armstrong, Lillian Hellman e Philip Roth discutem experiências, métodos e sentimentos que orientam seu árduo ofício, misto de literatura, crítica e história

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2013 | 22h00

NOVA YORK - O marido da autora e biógrafa britânica Hermione Lee chegou em casa numa noite da década de 90 e perguntou por que sua mulher estava chorando. "Eu a matei", confessou Lee, explicando que tinha acabado de concluir o capítulo sobre o suicídio de Virginia Woolf, em sua celebrada biografia da romancista. "Oba!", reagiu o marido, aliviado. A plateia irrompe em gargalhadas, no Centro Leon Levy para Biografia, que faz parte da City University of New York. O público não está festejando a tragédia de Woolf, mas expressando simpatia pela agonia da biógrafa.

O Centro foi criado em 2008 com uma doação da fundação filantrópica Leon Levy com o objetivo de reunir acadêmicos e escritores independentes dedicados à biografia como gênero literário. Oferece bolsas e outros recursos para biógrafos e promove eventos regulares abertos ao público.

Hermione Lee foi entrevistada na semana passada pelo diretor do centro, Gary Giddins, exaustivo biógrafo de Bing Crosby - já está terminando o segundo volume sobre a vida do cantor americano -, de Louis Armstrong, e mais conhecido por três décadas de crítica musical nas páginas do Village Voice. Mas o programa do dia era sobre biografia de escritores. Um elenco expressivo de biógrafos foi dividido entre temas e incluiu os biógrafos de Lillian Hellman, Sinclair Lewis, Raymond Carver e o também escritor Blake Bailey, que vai passar os próximos seis anos debruçado sobre a vida de Philip Roth.

Virginia Woolf, lembra Lee, tinha tanto fascínio quanto desconfiança da biografia, que ela chamava de life-writing (escrita da vida). A biografia se consolidou como gênero literário no século 19, mas Hermione Lee resiste à expressão "arte da biografia" porque, segundo ela, sugere um autor colocando sua preocupação artística à frente da vida do biografado. "A biografia está morta? Tenho ouvido essa pergunta", diz ela. "Mas, para mim, o que quer dizer é que a biografia está em evolução. E considero a biografia literária uma grande oportunidade para experimentação." Como exemplo da oportunidade aproveitada com maestria, ela cita 1599, Um Ano na Vida de William Shakespeare (Editora Planeta do Brasil), de James Shapiro. Lee é autora de uma biografia de Edith Wharton e de um saboroso livro de bolso sobre o gênero, Biography, A Very Short Introduction (Biografia, Uma Introdução Muito Curta, Oxford). Ela publica, no segundo semestre, uma biografia de Penelope Fitzgerald, uma obra que foi convidada a escrever pelos herdeiros da romancista e poeta britânica.

O anfitrião Gary Giddins pergunta sobre os sentimentos possessivos do biógrafo. Uma das escritoras que mais despertam ciúmes sobre sua narrativa biográfica é Jane Austen e Hermione Lee conta que conhece um episódio em que um autor tentou impedir outro de continuar escrevendo sobre Austen. Hermione Lee admite a fraqueza: "Tenho de ser passional e sentir necessidade de contar a história", mas apenas quando o trabalho está em curso. "Depois da publicação, eu consigo me desprender", revela. Ela lembra que o sentimento de posse aflige todos os envolvidos com o biografado. Um dos filhos de Penelope Fitzgerald, embora estivesse colaborando com a pesquisa, a certa altura, disse, angustiado: "Você tomou minha mãe de mim".

Virginia Woolf inspirou mais de 30 títulos, mas ela mesma admitiu que as vidas precisam ser revisitadas por novas gerações e Lee acha que o argumento é perfeito vindo de uma filha da era vitoriana que evoluiu, através das biografias, para se tornar um ícone feminista. "As vidas nunca ficam congeladas no tempo", garante ela. O que não significa tolerar recursos de ficção como inventar diálogos não documentados. E a subjetividade do biógrafo? Lee deixa claro que biografia não é autobiografia, mas o autor deve admitir que a sua é apenas uma versão de uma vida. Por isso, recorda, ela se permitiu concluir a biografia de Virginia Woolf com uma breve narrativa sobre a própria experiência, na primeira pessoa.

Mais do que a interferência subjetiva, o dilema moral oferecido pela vida de escritores, em que temas comuns são alcoolismo e disfunção familiar, dominou parte da conversa no debate sobre os modernistas americanos, na City University. Richard Lingeman, autor de Sinclair Lewis: Rebel from Main Street (Sinclair Lewis: Rebelde da Rua Principal), lembra que Martin Schorer, o biógrafo anterior do primeiro romancista americano a ganhar um Nobel de Literatura e autor de Babbit, expressava antipatia evidente não só pela obra como emitia julgamento sobre o alcoolismo de Lewis. Mesmo assim, destilou sua hostilidade ao longo de 867 páginas.

Alice Kessler-Harris cita uma resenha de seu livro A Difficult Woman: The Challenging Life and Times of Lillian Hellman (Uma Mulher Difícil: O Tempos e a Vida Desafiantes de Lillian Hellman, Bloomsbury Press), lançado em 2012. "Um crítico disse que o título devia ser Uma Mulher Impossível", diz a biógrafa da autora de Pentimento e Caça às Bruxas. "Ela era mentirosa, ladra, gananciosa, agressiva e uma judia antissemita. Mas também era uma amiga devotada e usou a própria celebridade para apoiar causas como a das liberdades civis na década de 70." Kessler-Harris antecipa a pergunta: "Como eu tento reconciliar os dois lados? Não tento", conclui.

Blake Bailey concorda. Ele é autor de três elogiadas biografias de escritores, Richard Yates, John Cheever e da recém-lançada Farther & Wilder, The Lost Weekends and The Literary Dreams of Charles Jackson, sobre o autor do romance The Lost Weekend, que inspirou o filme Farrapo Humano, de Billy Wilder (leia abaixo). "Se você encara seu biografado sem preconceito, vai acabar encontrando um ser humano como si mesmo", adianta Bailey. E recorda que, para a biografia de Cheever, entrevistou seu amante no fim da vida, Max Zimmer. "Max me disse, Cheever era um monstro, ele me estuprou, destruiu minha vida", conta Blake. "Eu me perguntei, o que faço agora? Não quero passar os próximos cinco ou seis anos com um monstro. Fui ler as 4.300 páginas do diário de Cheever e descobri o que se passava sob a superfície, do ponto de vista de Cheever. E pude ver que a verdade era muito mais complicada do que a versão de Max."

Um ótimo exemplo de biografia de um personagem potencialmente detestável, recomenda Bailey, é Truman Capote: Uma Biografia (Editora Globo), de Gerald Clark. "Clark é que é um ser humano admirável", afirma ainda Bailey.

Se biógrafos como Hermione Lee e Blake Bailey são estudiosos da vida interior de seus personagens, Alice Kessler-Harris diz que, como historiadora, está mais interessada em pesquisar como uma vida ilumina um período: "Como Lillian Hellman derrubou barreiras e influenciou seu tempo?".

E voltamos ao suspiro de alívio de Hermione Lee quando ela conseguiu colocar na página o ponto final da vida de Virginia Woolf. De sua casa no Estado da Virgínia, Blake Bailey confessa, por telefone, que nunca buscou personagens vivos, "um campo minado", mas faria uma exceção para Philip Roth. O autor de Adeus, Columbus e Pastoral Americana, procurado por Bailey decidiu cooperar com ele. "Até agora, não tenho motivo para me arrepender da decisão", diz Bailey. "Philip tem cooperado sem reservas, tanto nos encontros comigo como no acesso aos papéis." O acesso de Bailey aos papéis de Philip Roth é exclusivo. O arquivo do romancista, que vai fazer parte da Biblioteca do Congresso em Washington, fica selado até 2050. O compromisso do biógrafo é transferir para a biblioteca todos os documentos quando terminar a biografia.

Bailey acha que Roth, com seus 80 anos completados este mês, gostaria de ler sua própria biografia.

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