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Dor, carnaval e resistência de um país no limite

Diogo Liberano transita entre as funções de ator, dramaturgo, adaptador e diretor em 'Vermelho Amargo' e 'Maravilhoso'

DANIEL SCHENKER , ESPECIAL PARA O ESTADO / RIO, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h11

Diogo Liberano estreia no Rio dois trabalhos que, apesar de não terem partido dele, se tornaram bastante pessoais: as montagens de Vermelho Amargo e Maravilhoso. A primeira - mergulho na obra do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012) - surgiu de uma iniciativa dos atores Daniel Carvalho Faria e Davi de Carvalho; a segunda - uma apropriação do Fausto, de Goethe, entrelaçada com o universo do carnaval brasileiro - foi idealizada pelo ator Paulo Verlings.

Em Vermelho Amargo - que chegou ontem ao palco do Espaço Sesc, em Copacabana -, Liberano assina direção e adaptação (com Dominique Arantes) e atua. Em Maravilhoso - que desembarca hoje no Teatro Gláucio Gill, sob a condução de Inez Viana -, responde pela dramaturgia. Não é só: Liberano está envolvido com os projetos de uma performance que será apresentada pelo ator Marcelo Valle, da Cia. dos Atores, em setembro, e de Concreto Armado, próximo espetáculo de sua companhia, a Teatro Inominável, programada para abril de 2014. E planeja seguir mostrando A Casa Não Sabe, trabalho que dirige a partir da reunião de três textos (de Rafael Gomes, Rodrigo Audi e Keli Freitas) dispostos em formato de cena itinerante por uma casa.

Logo no começo do processo de Vermelho Amargo, Diogo, Daniel e Davi travaram contato com Bartolomeu Campos de Queirós, que aprovou a empreitada. Tiveram a ajuda da atriz Vera Holtz, que conhecia o escritor e se conectou ao projeto. De início, não investiram numa adaptação do papel para a cena. Os atores decoraram o livro inteiro. "Entretanto, conclui que seria importante adaptar porque a leitura tolera pausas e aberturas, enquanto o espetáculo teatral ocorre num tempo compartilhado de maneira única, no aqui/agora. Vi que caberia propor uma leitura da obra. Para nós, Vermelho Amargo é sobre a vida de alguém que foi confrontado muito cedo com a morte - no caso, da mãe - e conseguiu sobreviver a essa imensa falta", realça Liberano, de 25 anos, acerca do livro de Queirós.

A inspiração autobiográfica do romance não anula a instância ficcional, na medida em que a evocação do passado é sempre realizada através de acréscimos e subtrações em relação aos fatos vivenciados. Todos os integrantes da equipe foram estimulados a desenvolver interpretações particulares da obra. "Isso trouxe uma multiplicidade de pontos de vista sobre o material original", observa Liberano, que entrou em cena por causa de um imprevisto: Daniel Carvalho Faria sofreu uma cirurgia de apendicite. O problema de saúde não o tirou do palco, mas determinou um remanejamento de funções. "Daniel ocupa agora o lugar do autor, de alguém que permanece entre a cena e o espectador. Daqui a pouco, eu vou migrar para esse lugar e Daniel voltará para o seu espaço", informa.

Já Maravilhoso - que, antes da temporada carioca passou pelo Festival de Curitiba, pelo Festival Cena Brasil Internacional e pelas cidades de São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza e Juazeiro - nasceu de uma proposta menos intimista que a de Vermelho Amargo. Não é, porém, destituído de uma perspectiva existencial, subjetiva. Uma crise de identidade própria do ser humano, detectada no descompasso entre aquele que cada um gostaria de ser e quem efetivamente se tornou, vem à tona. Na dramaturgia, Diogo Liberano conjuga essa percepção com uma tomada de posição em relação ao contexto atual. "A corrupção no Brasil ficou escancarada. Não há mais mistério. Vivemos um tempo de saturação, que evidencia um limite. Nossa realidade começa a oferecer resistência à desmedida", afirma.

Diogo Liberano aproxima a discussão do Rio por meio do carnaval. "Existe uma imagem maravilhosa que é vendida, mas não corresponde à verdade. O título da montagem é irônico. Não abordo o carnaval sob o ângulo cultural ou artístico. Levando em conta a situação do Rio, vejo essa manifestação como o Pão e Circo da antiga Roma. O carnaval é um feriado instituído que suscita comportamentos deturpados. Sugere que você enlouqueça por uma semana e libere o que guarda na vida. Pode haver algo de bom nisso, mas essa consciência não é valorizada. O carnaval funciona como uma máquina de produzir dinheiro que fere os direitos do cidadão e, ao mesmo tempo, permite ferir regras de convivência", avalia ainda.

O Rio também é personagem de Concreto Armado, próximo trabalho da Companhia Teatro Inominável, que se destacou com montagens como Vazio É o Que Não Falta, Miranda, Como Cavalgar Um Dragão e Sinfonia Sonho, esta última influenciada pelo massacre da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, que vitimou 12 adolescentes, em abril de 2011. "Esse acontecimento se impôs durante os ensaios. Foi nosso primeiro encontro, ainda que acidental, com a cidade. Não há mais como deixar de falar sobre ela", diz Liberano, que se debruçará agora sobre a Copa do Mundo. "Nosso olhar não é positivo. Não dá para achar que está tudo bem", sublinha ele.

Há outros projetos em andamento. Ao lado de Cesar Augusto, da Cia. dos Atores, e Simon Will, do coletivo Gob Squad, Diogo Liberano está transitando entre a dramaturgia e a direção de uma performance de Marcelo Valle. "É um trabalho que parte de um desejo de Valle de dividir com o mundo mudanças na própria vida, tanto sob o âmbito pessoal quanto sob o profissional", resume. E, formado em direção teatral da UFRJ, Liberano deverá dar continuidade, em 2014, ao projeto da Mostra Hífen, que agregou montagens produzidas nas universidades de artes cênicas.

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