Dono do lar

É mais fácil entender o painel de um Airbus do que o de uma máquina de lavar/secar

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2020 | 03h00

Sou dono de casa desde os 17 anos. Minha mãe era daquelas que ia sutilmente empurrando os filhos para a longa guerra da vida: cuidar de um lar. 

Chuveiro elétrico, lâmpadas, abrir e fechar uma geladeira, varrer, OK. Passar roupa? Desnecessário. Lustrar móveis e prata, idem. Mas minha primeira experiência em fazer um arroz integral me traumatizou para sempre. Virou pipoca.

Numa cozinha, faço o básico: macarrão com molho pronto, salsicha com mostarda, ovos variados. Recentemente, aprendi com uma adolescente de 11 anos a fazer milagres pelo micro-ondas. Apesar de cozinhar muito bem para os adultos (seu risoto de aspargos é divino), ela, para ela, só faz receitas em canecas, que aprendeu no TikTok.

Apesar de amador na cozinha, sempre relutei em me aproveitar dos benefícios oferecidos pela descoberta casual de 1947, quando o fabricante de magnetrons Percy Spencer percebeu seu chocolate no bolso derreter ao passar de carro em frente de um radar ativo, que era aquecido pelo seu ganha-pão.

A energia elétrica, na forma de uma corrente alternada, vira corrente contínua por conta de transformadores, diodos e capacitores, que alimentam o magnetron: ânodo cilíndrico que faz girar um cátodo para criar o campo magnético, uma nuvem eletrônica, acelerando ondas e permitindo o cozimento de alimentos.

Assim que surgiu no Brasil (tardiamente, por conta do estúpido protecionismo), boatos diziam que se comêssemos assim que tirássemos do forno, as moléculas queimariam nossas entranhas. Muitos acidentes aconteceram. Colocar algo de metal num e ligar nos remete a uma cena de ficção científica de filme B.

Minha irmã esquenta água do chá num. Tenho ressalvas. Medo. E acho seu visor uma das coisas mais idiotas e inúteis já criadas, pois ninguém presta atenção no que está escrito, e seleciona na intuição, puro chute, o tempo de cozimento.

Ou alguém aperta as opções arroz, macarrão, feijão, sopa, pipoca, descongelar carne, frango, peixe, no painel de um Electrolux? O consumidor de Brastemp é mais chegado em carboidratos do que o dos concorrentes. No painel, outras funções: lasanha, batata, pizzas. 

O fabricante LG quer gordos e magros na sua clientela e colocou tudo no painel, de tortas, bolos a legumes e frutas. O da Philco parece fabricado por crianças: pipocas, bolo, caneca, pizza, brigadeiro, lasanha, pizza e só. Faltou hot-dog. E “desodor”, do meu Panasonic, para que serve? Aliás, alguém já leu o manual de um micro-ondas? 

Um micro-ondas americano comum, como Whirlpool, não subestima a inteligência dos seus consumidores e simplifica: frozen entree, steam simmer, warm hold, reheat, defrost, soften metl (pratos congelados, cozinhar a vapor, manter quente, reaquecer, descongelar, suavizar o derretimento). Americanos, diferentemente dos brasileiros, leem manuais.

Os eletrodomésticos causaram uma revolução nos costumes. Foram responsáveis pela (ou consequência da) ida das mulheres ao mercado de trabalho, colaborando com a revolução feminista. Curiosamente, muitos se apropriaram da tecnologia da guerra da indústria armamentista, onde por sinal as mulheres encontraram um campo vasto de empregos durante as guerras. Mó respeito pelos eletrodomésticos, mas...

Com meu forno tip top, até hoje me embanano. É complicadérrimo ligar. É belo, especialmente numa cozinha aberta para a sala, como a minha. Mas nenhum decorador, arquiteto ou vendedor me confessou o que de fato interessava: demora o dobro de tempo para assar.

Mas minha birra, mesmo, é com máquinas de lavar. Antes, eram botões analógicos, que, aliás, viviam soltando na mão. Bastava girá-los numa minutagem escolhida pela intuição. 

Complicaram com o tempo. Digitalizaram. Mais fácil entender o painel de um Airbus do que o de uma máquina de lavar/secar. Que, por sinal, funciona na teoria, mas na prática, o velho varal ainda é mais eficiente e econômico.

Vamos lá. Além de uma infinidade de alertas sonoros, tem o smart control, com funções como “nível de secagem”. Como vou saber? Não dá para secar completamente? E “manchas difíceis”? Tem fáceis? “Adiar o fim.” Como vou saber adiar, se não posso abrir para checar?

O botão de girar agora é cheio de luzes, barulhinhos e opções que nem um nerd é capaz de entender: desodorização, sanitização, rápido 15’, super-rápido. Só quero lavar e secar. 

Opções: roupas de bebê, algodão, sintético, lã, roupas impermeáveis. E se a roupa de bebê for de algodão, sintética ou lã? E se a calça for sintética, e o moletonzinho do filho, de algodão? Terei que separar e fazer a operação diversas vezes?

Lavagem do tambor do eco. Que é isso?! Secar sintéticos. Mas misturei sintético com algodão. De roupa cujo algodão é misturado com sintético. Lã. Lã e algodão são diferentes? Cara, eu só quero lavar a roupa suja do dia, dá pra dar uma força? Sem tempo, irmão.

Ao menos, liquidificador e aspirador de pó ainda trabalham com o clássico e óbvio botão liga-desliga. Caramba, por que fui dar ideia...?

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