Alex Carvalho/ TV Globo
Alex Carvalho/ TV Globo

Dono do jogo

Ator há mais de 30 anos, Falabella quer se distanciar da função e fazer só o que deseja

João Fernando, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2013 | 02h16

Fazer humor que diverte sem provocar risadas foi o desafio que Miguel Falabella propôs quando escreveu Pé na Cova. A aposta do autor em mostrar uma família do subúrbio carioca com integrantes esquisitos, incultos e que se atrapalham com as palavras fisgou tanto a audiência que terá uma segunda temporada a partir de amanhã, às 23h05, na Globo.

“O Brasil tem lacunas profundas no processo educacional. As pessoas adoram essa coisa de eles não saberem o nome de nada, nunca saberem nada. É quase um diálogo de absurdo”, analisa o criador e protagonista. Ele afirma que a trama sobre os personagens que vivem em função da morte, em uma funerária falida, tem a ver com uma mudança de foco de seus textos. “É um olhar afetuoso que quero lançar sobre os esquecidos. Minha ideia sempre foi fazer os Addams do Irajá. Mas queria fazer uma Família Addams contemporânea e falar dessa profunda indigência em que a gente vive.”

Segundo Falabella, a resposta do público é direta e vai além das pesquisas que recebe da emissora. “As pessoas falam muito comigo. Como são muitos anos de televisão, as pessoas têm uma relação muito curiosa comigo. Elas não me veem como celebridade. Chegam com intimidade e falam com muita franqueza comigo. Acho que o seriado está cumprindo (o papel). Se não for totalmente entendido agora, será um dia, quando o Paquistão tiver visto a luz. Mas é para isso que a gente faz arte, né?”

Miguel Falabella diz que o telespectador, principalmente o de classes sociais mais baixas, não se identifica com o que vê, mas se encanta com o exagero da ignorância dos personagens de Pé na Cova. "É alegórico. Claro que ninguém é assim. Não subestimo o público. Nunca subestimei, por isso faço sucesso há tantos anos. Quem subestima não estabelece relação. Você não precisa falar da mesma coisa sempre", contou ao Estado.

Ele jura ter retorno de públicos diferentes. "O Pé na Cova passeia por todo mundo. Meus próprios colegas na Globo são extremamente afetuosos e falam quando chego para gravar. No Projac, falo direto com o pessoal da limpeza. Eu ando na Lagoa, converso com todo mundo. Faço ginástica no clube. Quando fico esperando o personal, bato papo com os porteiros. Eu gosto de falar com as pessoas, dou trela para eles. Aí, vêm assuntos maravilhosos. Saiba apertar os botões e colha."

Para o artista, seu novo tipo de humor pode criar resistência dos admiradores de seu trabalho. "É claro que as pessoas se ressentem por eu não estar fazendo um humor mais direto neste momento, que é mais simples de fazer. É necessário mudar e falar outras coisas, respirar outros ares para que a gente não fique na mesmice. Se for para ficar fazendo a mesma coisa, é melhor parar. Tenho outros talentos, posso trabalhar em outras áreas", dispara.

Além de mostrar as trapalhadas mentais na casa de Ruço, dono da funerária F.U.I., o seriado trata de outras questões, como o casal de lésbicas, formado por Odete Roitman (Luma Costa), filha do protagonista, e Tamanco (Mart'nália), que teve boa aceitação do público, segundo pesquisas recebidas pelo autor. Entretanto, cena de beijo entre elas ainda não tem previsão.

"Tem tanta coisa antes do beijo gay. Não estou preocupado com isso. Esse é o lado Paquistão que a gente não pode incentivar. Estou preocupado com os seres humanos e olhá-los com humor. Um dia vai ter, as coisas avançam. Haverá grandes movimentos ainda. O bicho ainda vai pegar e tem quê."

Um dos desafios da nova temporada é a mudança de horário, Exibido originalmente às quintas, passou para as noites de terça para dar lugar a um nova edição do The Voice. "Comigo não foi conversado, mas gostei. Vim de um sucesso das terças do Toma Lá, Dá Cá. Já me libertei da escravidão da audiência. Já tive, não tenho mais. Quero fazer coisas em que quero dizer algo."

Falabella afirma que a TV pode deixar de ser prioridade quando necessário. "Ou eu faço o que eu quero ou não vou fazer. Eu quero escrever um romance", conta. Entretanto, não quer largar o osso de Pé na Cova. "Talvez a gente tenha uma terceira temporada, me agrada a ideia."

Novos rumos. O carioca, prestes a completar 57 anos, garante ter projetos na manga. "Tenho sinopse de novela praticamente pronta e uma minissérie. Tenho roteiro de cinema para escrever, só não tenho tempo", afirma. Sem assinar um folhetim desde Aquele Beijo (2011), ele confessa não ter muita vontade de fazer outro. "Na novela, você não pode ser pego de calças na mão, tem de tê-la estruturada. De um modo geral, não acho difícil escrever. Só não acho prazeroso." Dar expediente como ator em uma obra longa está fora de seus planos. "Acho difícil que eu trabalhe agora, assim. E ninguém anda me chamando, me querendo."

Segundo Falabella, a ideia é variar as funções. "Uma hora tenho de tirar meu time de campo, deixar a garotada chegar. Vou fazer outras coisas, não é que eu vá desaparecer. Eu vou me adequando. Lugar sempre vai ter. A gente tem de se reinventar para sobreviver. É uma selva cotidiana. Se eu estivesse fazendo o Sai de Baixo até hoje, teria sido assassinado a pauladas pela população irada", debocha.

Diretor do musical A Madrinha Embriagada, ainda em cartaz em São Paulo, o artista pensa adiante. "Quero fazer um (texto do) Joe Orton. Estou cansado de musical, quero voltar para a alta comédia, fazer What the Butler Saw. Quando penso numa coisa, já vejo feita. Eu nasci com a autoajuda embutida. Estou lendo e vendo como vou adaptar."

Mesmo com a constância de grandes produções, Falabella vê resistência ao formato. "No Brasil, não sei por que, a mística é negada. Talvez por causa da ditadura e da necessidade de a arte servir à política, o entretenimento passou a ser o diabo. E quem perdeu? Tem de ter para todo mundo. Musical é um gênero que tem de estar em cartaz em uma grande cidade. Os grandes musicais impulsionam toda a indústria, se é que podemos falar isso no Brasil. É risível."

Para ele, o problema não é só por parte do público. "Num prêmio de teatro, você chora. É tudo pobre. Aqui tem de ter uma noite black-tie. O público gosta de ver a gente arrumado. Mas é a síndrome do coitadinho. Eu não sou e não finjo que sou."

Apesar de apoiar o glamour nas artes, o ator se diz uma pessoa simples e com as raízes do subúrbio da Ilha do Governador, zona norte do Rio, onde cresceu e se inspirou para criar Pé na Cova. "Sou completamente suburbano. As pessoas acham que subúrbio é menor, mas são outras regras. Você vai dizer que um casamento grego é cafona? Sorry se você não tem mundo. Se não tem, vá aprender a ter. As pessoas que nos julgam não têm. A gente tem de deixar o mundo chegar na gente para a gente não perder a viagem."

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