Donna Summer, legado eterno

No último dia 17, faleceu na Flórida aos 63 anos a cantora Donna Summer, vítima de câncer. Naquela noite, todas as boates e pistas de dança do mundo deveriam ter feito um minuto de silêncio em sua homenagem.

Claudia Assef, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h09

Na data, o DJ paulistano Mauro Borges traduziu bem a importância da diva para a música pop: "Acaba de morrer o Elvis Presley das pistas de dança", escreveu no Facebook. É bem por aí.

Se Madonna se tornou a rainha do pop nos anos 80/90 e Lady Gaga/Beyoncé se revezam nesse trono de uns tempos pra cá, foi graças a uma tal LaDonna Andre Gaines, que no início dos anos 70 abriria caminho para uma persona feminina ao mesmo tempo moderna, sexy, contestadora e musicalmente inovadora.

Como tantas outras vocalistas americanas, Donna Summer começou cantando em coral de igreja, mas sua ambição ia muito além do "american dream". Pouco antes de terminar o ensino médio, ela se mudou para a Alemanha para integrar o elenco do musical Hair por lá. Decidiu ficar no país, onde se casou - o sobrenome Summer veio do primeiro marido, o ator austríaco Helmut Sommer - e começou a trabalhar em peças de teatro e musicais. Mas não é essa a Donna Summer que entrou para a história.

A cantora que nós aprendemos a amar foi lapidada por dois produtores que mudariam sua carreira completamente, o italiano Giorgio Moroder e o inglês Pete Bellotte.

Atriz que era, Summer serviu direitinho para personificar as ideias eletrônicas de Bellotte e, especialmente, de Moroder. Naquele que se tornou o primeiro grande hit eletrônico das pistas de dança, I Feel Love, a cantora aparece no clipe da música dançando como se fosse um robozinho.

A música foi tirada do disco I Remember Yesterday, um álbum conceitual que contava a evolução da música através de suas faixas, com sons e timbres que cobriam gêneros musicais a partir dos anos 40 e tinha em I Feel Love a visão do futuro.

Essa visão de futuro de Donna Summer, Bellotte e Moroder, pavimentada por uma hipnótica e crescente linha de sintetizadores, foi um golaço. I Feel Love foi para o topo das paradas na Europa e nos Estados Unidos e ficou eternizada como uma das músicas mais emblemáticas das pistas de dança de todos os tempos. DJs de todos os estilos já tocaram ou ainda vão tocar esse clássico, que faz bonito de casamentos a boates gay, de bailes da terceira idade a inferninhos de música eletrônica.

Dois anos antes de I Feel Love, também amparada pela dupla Bellotte e Moroder, Donna Summer entrava para a história como a primeira mulher a causar fuá trazendo abertamente o sexo para o seu repertório. Assim como já havia feito Serge Gainsbourg, em 1969, com sua erótica Je T'Aime Moi Non Plus, Donna Summer criou a orgásmica Love To Love You Baby. Ao longo de seus quase 17 minutos de duração, a faixa traz Summer interpretando gemidos e sussurros calientes demais para o zeitgeist de 1975 - lembrando que naquele momento todo o espírito libertário e hedonista da disco music ainda não havia eclodido.

Em 1978, Summer foi parar no cinema, atuando na comédia Thank God It's Friday (aqui no Brasil Até Que Enfim É Sexta), que acabou rendendo a ela o primeiro prêmio Grammy, pela música Last Dance, outra que virou hit em todas as discotecas da época. No ano seguinte, com o álbum Live and More, Summer teve seu primeiro álbum encabeçando a lista dos mais vendidos dos Estados Unidos.

Visionária, Donna Summer soube tirar os pés da disco music antes que sua fórmula enfraquecesse. Deixou a gravadora Casablanca, um dos maiores ícones do som dos anos 70 até hoje, e se tornou a primeira artista do então incipiente Geffen - que mais tarde veio a revelar nomes como Guns N' Roses e Nirvana.

Em 1983, sua música She Works Hard For The Money não foi apenas uma marca oitentista na sua trajetória, mas também acabou virando um grande hino feminista.

Dos anos 80, Summer também soube tirar o melhor até de ícones da produção musical de gosto duvidoso, como os fazedores de hit ingleses Stock, Aitken & Waterman. Com o time de produtores, ela emplacou This Time I Know It's For Real, seu último grande hit.

Poucos artistas da disco music conseguiram manter sua obra tão em evidência ao longo das décadas quanto Donna Summer. Sua música é até hoje matéria-prima para DJs e artistas dos mais diferentes nichos, de Beyoncé a Daft Punk. Mesmo que afastada da produção musical ultimamente, sabíamos que Summer estava entre nós. Agora o céu acaba de ganhar uma nova estrela bem brilhante. Obrigada, Donna Summer.

CLAUDIA ASSEF,  37,  É AUTORA DO LIVRO, BLOG TODO DJ JÁ SAMBOU, DIRETORA DE CONTEÚDO DO PORTAL VIRGULA

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