Donka - Uma carta a Chekhov

Peça do Chekhov International Threater Festival está está em cartaz em curta temporada no Sesc Pinheiros

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2010 | 00h00

Na hora de criar Donka - Uma Carta a Chekhov, o diretor Daniele Finzi Pasca não recebeu um convite, mas quase uma intimação do Chekhov International Theatre Festival. Na entrevista abaixo, o clown suíço, criador do Teatro Sunil, conta como concebeu a montagem que abriu as homenagens pelos 150 anos do escritor, na Rússia.    

 

 

 

  Donka. Palhaços Oníricos

 

 

 

Você criou Donka a partir de um convite do festival Chekhov, é isso?

Na verdade, foi uma proposta muito estranha porque Valéri Chadrine, diretor do festival, não me fez exatamente um convite: estávamos em uma coletiva de imprensa, apresentando outro espetáculo e, de repente, ele anunciou que eu criaria um espetáculo sobre Chekhov. Fiquei muito surpreso, porque conheço Chekhov como quase todo mundo que trabalha com teatro, mas não sou um especialista. Ainda mais em um país como a Rússia, onde todos crescem ouvindo Chekhov, como acontece na Inglaterra, com Shakespeare, ou na França, com Molière.

 

Mas você conseguiu entender por que foi o escolhido para fazer o espetáculo que abriria as comemorações dos 150 anos?

No final, entendi. Pode ser que faça sentido toda a polêmica com Stanislavski sobre se suas obras eram mais dramas ou comédias, como ele, Chekhov defendia. E eu tratei de entender suas obras e suas ideias do ponto de vista do clown.

 

E, desde o início, você pensou em partir desse ponto de vista: do clown e do trabalho de circo que você já faz?

 

Sabe, eu comecei com um teatro de pesquisa e continuo muito perto das minhas raízes, da simplicidade. Mas, às vezes, tenho a sensação de que tenho um irmão gêmeo, que se vê envolvido nessas coisas, como esse espetáculo de Chekhov, ou como foi na Olimpíada e no Cirque du Soleil. São situações que sempre me parecem um erro e eu fico me perguntando: "Por que me chamaram? Isso é um engano."

Na hora de criar você não se deteve só nas obras de Chekhov, mas buscou outras referências: cartas, diários. Como foi esse processo?

 

 

Sempre trabalho com a sobreposição de pequenas coisas que falam de alguma coisa grande. Então, descobri que os cadernos de Chekhov estão cheios de fragmentos, pedaços que depois vão tomar forma em contos, em peças. A força do Chekhov também está aí, nessa capacidade de criar em algumas poucas frases, todo o universo de uma história.

 

 

O subtítulo do espetáculo é Uma Carta a Chekhov. Ele é então uma espécie de interlocutor, alguém com quem você fala?

É uma carta para ele, para falar sobre como ele me comoveu. Essa viagem, por exemplo, que ele fez à ilha de Sacalina. Um homem que já estava doente há 35 anos, que tinha problemas pulmonares, que cuspia sangue o tempo inteiro, e que decide cruzar toda a Rússia para ir até essa ilha que era uma grande prisão. E uma viagem que não é como agora, quando tomamos um avião, mas que durou meses.

 

Imaginar o que o levou a fazer isso, o que o movia...

Ele tinha a necessidade de testemunhar, de ver com os seus olhos. E isso é muito interessante hoje, em um mundo em que somos bombardeados de informações, em que as opiniões se formam sem que as pessoas tenham visto, tocado, lido.

 

Até pela maneira como você disse que trabalhou com os diários, não foi só um trabalho com a obra dele, que explorou um pouco esse universo Chekhov. Como é que você introduziu os atores nesse universo?

Primeiro, procurei atores que conhecia muito bem. Por exemplo, há duas atrizes brasileiras, a Beatriz Sayad e a Helena Bittencourt. A Beatriz trabalhou comigo a primeira vez em 1991. E estive com a Helena no Cirque du Soleil, há uns seis anos. Então, eu e os atores desse pequeno elenco falamos muito profundamente o mesmo idioma, buscamos uma certa direção comum, que é mais sentimental do que intelectual.

 

A montagem tem um trabalho corporal muito forte. Não é exatamente uma coreografia, mas existe um apuro muito grande na movimentação dos atores, nas acrobacias. Como é que você trabalha essa parte. Tudo surge junto ou em etapas distintas?

Sim, é tudo junto. O trabalho surge em imagens que crio. Então, preciso de atores que tenham essa preparação física muito forte. É como um ator total, que canta, que dança. No final das contas, são o que eu chamaria de clowns, que são esses intérpretes que são muito polivalentes, que brincam, que caem, que jogam e que falam também. Essa é a minha visão do clown, que não tem nada a ver com o palhaço. É mais no sentido shakespeariano do clown: são personagens que não são personagens, são uma forma de se emocionar.

 

Há algum tempo você estava trabalhando mais com o circo propriamente dito, com o Circo Éloize. Donka é um retorno ao teatro?

Quando estava fazendo teatro, me diziam que eu estava fazendo circo. Quando estou fazendo circo, estava fazendo teatro. Sempre me dizem que não estou fazendo o que estou fazendo. Então não saberia responder.

 

Vocês vão apresentar o espetáculo aqui em português. Na Rússia, fizeram a encenação em russo. Por que essa vontade de apresentar a peça no idioma local? Não seria mais fácil simplesmente usar uma legenda?

Acho que o idioma de um ator que atua sem saber exatamente o que está falando está cheio de uma poesia muito particular. E, no caso desses intérpretes, isso é muito interessante. Porque o clown não é a representação da estupidez, é a representação da fragilidade, do desarticulado. Então, por isso, sempre utilizei atores que destroçam um pouco o idioma.

 

QUEM É

DANIELE FINZI PASCA

DIRETOR DE DONKA

Suíço, é clown, coreógrafo e fundou o Teatro Sunil em 1983. Criador de 25 espetáculos, imprimiu uma nova visão à concepção do clown, que ficou conhecida como "teatro da carícia". Trabalhou com o canadense Circo Éloize e assinou a coreografia Corteo para o Cirque du Soleil.

NO FIT MINEIRO, BECKETT POR BOB WILSON

A montagem de Donka - Uma Carta a Chekhov abre na quinta, dia 5, a 10ª edição do FIT - Festival Internacional de Belo Horizonte. Na programação, que se estende até o dia 15, estão previstas mais de 100 apresentações, com 11 grupos estrangeiros, 9 nacionais, além de 15 montagens de companhias mineiras. Entre as atrações internacionais, um dos destaques é Happy Days, versão do celebrado diretor norte-americano Bob Wilson para a obra de Samuel Beckett. Inédita no Brasil, a montagem traz a companhia italiana Change Performing Art.

 

Também merece atenção K@osmos, espetáculo de teatro aéreo do grupo argentino, que tem sede na Espanha, Puja. Na seleção nacional, figuram produções que já fizeram sucesso em outros festivais neste ano. Caso de Vida, espetáculo da curitibana Companhia Brasileira de Teatro, dirigido por Marcio Abreu, e Memória da Cana, peça de Newton Moreno.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.