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Donas de casa e escritores

Toda pessoa responsável por uma refeição familiar média é quase um gênio de equilíbrio entre contingência e desejo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 22h50

Pensando na dona de casa comum. O IBGE adverte que o fato pode se repetir em muitos lares com um dono de casa. É irrelevante para meu argumento. A pessoa deve fazer um almoço. O orçamento tem teto, os mercados fornecem mais ou menos a mesma coisa sempre e, claro, nossa personagem não cursou gastronomia em aulas na Cordon Bleau de Paris. Estamos diante de uma pessoa comum, como eu e como você, que deve cozinhar para sua família. 

“Salada de alface de novo? Já fiz duas vezes esta semana”, pode pensar nossa amável protagonista. “A carne subiu de preço, vou tentar fazer algo com ovos. Porém, como? Bater uma meia dúzia com repolho? As crianças não gostam muito. Ainda não terminou o que eu comprei. Se eu colocar mais cebola e alho, parece melhor. Tenho duas gelatinas, posso separar a clara de dois ovos, bater e fazer uma sobremesa. As gemas vão para a fritada de repolho.” O exercício de cozinhar é um misto de esforço, imaginação e, acima de tudo, um diálogo constante entre o real do que eu possuo em casa, os limites da minha habilidade e o desejo do consumidor final, no caso, a família. Toda pessoa responsável por uma refeição familiar média é quase um gênio de equilíbrio entre contingência e desejo. 

Passo ao segundo ponto. O escritor deve criar temas. Inventar, de cabeça, é mais fácil do que fazer um almoço. Sou livre, porém, mesmo no campo da imaginação, tenho de lidar com a já citada contingência. Vou falar disso de novo? Tem aquela coisa especial, porém quase nada sei sobre ela, pode dar problema. Não fiz curso de escrita criativa em Yale. O tempo é escasso, os ingredientes apresentam alguns limites e o público consumidor é amplo e exigente. 

Donas de casa e escritores, ou escritoras e donos de casa (ou dones de casa e escritorxs, se quiserem) precisam lidar sempre com uma ordenada (o real) e uma abscissa (o imaginário). O resultado será uma curva delicada, tensa até, com resultados melhores em um texto/refeição e piores em outro. Ninguém acerta sempre. É desejável que não erre como regra. Com o tempo, há certo ajuste recíproco entre família e quem cozinha e leitores com aquela/aquele que escreve. 

Você já cozinhou para sua família? Já sabe que há paladares mais exigentes e outros mais deglutidores sem limites ou exigências. Nas famílias alheias, sempre existe o chato declarado, aquele que possui instruções separadas sobre o ponto da clara e da gema do ovo, distinções para salsa crespa e lisa e advertências sobre a espessura da fatia de rabanete. Em geral, são exigentes, porém, curiosamente, enganáveis. “Eu adoro cenoura, mas não como bolo de cenoura!”, dizem, mas aceitam experimentar se a pessoa que fez declarar que foi elaborado apenas com ovos caipiras, o que justificaria a cor intensa. Pois é... muitos chatos são enganáveis.

Nas crônicas temos de, por vezes, disfarçar ingredientes. Os leitores possuem certa curiosidade com receitas, como a de hoje, todavia não querem palestras sobre os andaimes da criação. Vieram ali para ler/comer e poucos ficam interessados em como reduzir, saltear ou glaçar. Ingredientes muito específicos? Precisam ser utilizados com cuidado. Há paladares que se ofendem com pimenta; há leitores que abominam temas picantes. 

O mundo da cozinha/computador possui surpresas. Fez aquele prato/texto rapidamente, como se psicografasse? Não pensou muito? Saiu quase pronto e em quinze minutos? De repente, sob ação do acaso (também chamado de Espírito Santo por alguns), faz um sucesso enorme! Passou dias tentando, limou aqui, reduziu ali, colocou sob refinada apresentação e buscou uma epígrafe sofisticada? Passa “batido” para a maioria. Regra? Não, aprendemos que cozinha e escrita possuem dia, energia, fluxo de plasma, miasmas, acidentes e o caráter aleatório que os anglófonos definem pela linda palavra serendipity. 

Há pratos que melhoram e depuram com certo descanso. Muitos textos também são abandonados e, dias depois, ao voltar, vemos que mudando aqui e ali existe um potencial. O cozinheiro/escritor equilibra muitas laranjas no ar. Os pratos tradicionais precisam de acabamento e que se pense em como se apresentarão ao olhar do comensal. Os textos recebem retoques, revisões e... voilá, por vezes, causam enorme satisfação e, de repente, notamos uma falha que nenhuma revisão apontou. 

Autoras e cozinheiras convictas da sua qualidade podem querer formar o gosto do público. “Não me importa que desejem bem passado, meu bife será ao ponto!” “Não evitarei orações subordinadas, quero que as pessoas aprendam a ler períodos complexos!” Existem os tipos mais “populistas”: selecionam os temas de maior sucesso e sobre eles trabalham. Existe liberdade de escrita, claro, porém, de novo, existe o real. 

Ingredientes, equilíbrio, demandas de consumo, hierarquias editoriais, uso de temperos exóticos ou conhecidos, oscilações de gosto, momento, adequação, intuição, bom senso e certa estratégia de médio e longo prazo. Por fim, muito importante na cozinha e na lauda: o tamanho da forma, quase algo condicionante. Termino de escrever e acho bom, descubro que possui 7 mil toques com espaços. Meu limite é de 5 mil... Tenho de eliminar frases. Quais? De repente, todas parecem lançar um olhar de súplica: “Não me corte, eu sou essencial”. Assim seguem as cozinheiras, os cozinheiros, escritores e escritoras de todos os jaezes... Devo trocar jaez por tipo? Ah dúvida cruel, entre pimenta síria e zátar. Dos dois será um pouco demais? E se fosse só sal? Quem acerta será lido ou terá o almoço festejado. Boa semana a todos os leitores e leitoras. 

*Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de O Dilema do Porco-Espinho, entre outros.

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