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Lúcia Guimarães
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Donald e Michel

Na última semana, dois homens de temperamento radicalmente diverso se encontraram numa posição idêntica. Michel Temer e Donald Trump aproximaram os países que governam de precipícios institucionais. A delação bomba de Joesley Batista, mais do que ferir talvez de morte o presidente brasileiro, agravou o trauma do País em crise política e econômica desde 2014.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 02h00

Ambos os presidentes chegaram ao poder de forma constitucional, mas ambos, por motivos diferentes, governam sob uma nuvem de ilegitimidade. Temer assumiu depois de um impeachment que foi votado com ajuda da nata da delinquência política. Trump, além de perder no voto popular, parece ter contado com o empurrão de seu fã, o Vladimir de Moscou.

A rapidez com que os apelos por uma renúncia de Michel Temer vieram de grupos diferentes no espectro político deve revelar mais sobre a exaustão do público do que sobre o estranho arranjo de delação feito com a dupla sertaneja de Goiás. É compreensível o brasileiro desconfiar que habita aquele pesadelo comum em que a pessoa corre, corre e não sai do lugar.

Nos Estados Unidos, o público é refém de uma capital em estado de crise contínua. É tanta notícia explosiva e tanto vazamento, que eu queimei meu jantar mais de uma vez nos últimos quinze dias, incapaz de interromper o transe das revelações ao vivo no cabo.

Tanto Temer como Trump parecem sofrer de surdez sobre o limite da tolerância do eleitor com a percepção de que a mentira é o novo normal. Confiança é fácil de destruir, muito mais difícil de ser recuperada.

Nos dois países, enfrentamos um colapso da confiança nas instituições, tanto pelas revelações da Lava Jato, como pelo pinga-pinga de absurdos que emanam da Casa Branca. 

Estamos falando de um país que emergiu da ditadura há pouco mais de três décadas e outro que é a democracia constitucional mais antiga do mundo.

A erosão de apreço por instituições nos EUA não é produto do atual presidente. Em 1964, 3 em 4 americanos acreditavam que o governo seria capaz de fazer escolhas certas na maioria dos casos. Em 1976, apenas 33% tinham a mesma convicção. Sim, foi uma década traumatizada pelo fiasco no Vietnã, assassinatos dos irmãos Kennedy e Martin Luther King, conflitos raciais, estudantis e o escândalo de Watergate que levou à renúncia de Richard Nixon.

Mas é um declínio que existe em outras sociedades, na Europa e na América Latina. A organização da vida contemporânea, marcada pelo uso intenso de tecnologia, é hostil a soluções comunitárias. Usamos nossa adesão a causas, seja o vegetarianismo ou o meio ambiente, como um guarda-roupa de estação, mais do que como perspectivas sociais comuns. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, morto em janeiro passado, dizia que nos tornamos “artistas das nossas próprias vidas”, desconfiados de autoridades e instituições.

Pelo menos num aspecto devemos agradecer a Donald Trump. Ele está se revelando um combustível para o jornalismo, depois de décadas de erosão da confiança do público no papel da imprensa. Diante de um legislativo sequestrado pelo cinismo de homens e mulheres que tapam o nariz e fingem que não leram o último tuíte afrontoso, na expectativa de passar obscenos cortes de impostos para seus doadores de campanha, repórteres estão fazendo o trabalho investigativo que deveria ser iniciado por comitês da Câmara e do Senado.

Brasileiros e americanos têm um problema comum: esperam que a instituição da presidência possa emergir intacta depois de seus atuais ocupantes. Não é tarefa simples quando um presidente ataca a imprensa, o judiciário e a comunidade científica, enquanto o outro recebe um homem que acusa de mentiroso e falastrão no porão do Palácio do Jaburu, na calada da noite, para uma conversa de arrepiar. 

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