Dona Izabel molda Minas em cerâmica

Bonecas são a marca registrada da artesã, que aos 88 anos expõe no Rio, na mostra Mestres da Arte Popular

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2013 | 02h11

Izabel Mendes da Cunha, artesã da terceira geração de ceramistas em sua família, desde pequena costumava fabricar potes, travessas e outras peças no semiárido mineiro. Certa vez, ainda criança, a garota que fazia as próprias bonecas com sabugo de milho viu a mãe moldando uma moringa no barro, e percebeu ali a forma de um corpo. Teve uma ideia. A partir daquele instante, faria da cerâmica a matéria-prima para suas brincadeiras. Dona Izabel cresceu, aperfeiçoou suas criações, e se transformou numa das principais representantes da arte popular brasileira.

As bonecas de cerâmica são a marca registrada da artista que é considerada a responsável por promover uma transformação na economia do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e que hoje, aos 88 anos, continua em atividade e mantendo seu legado na figura das filhas e outros discípulos. Algumas das peças de Dona Izabel estão em exposição na Galeria Pé de Boi, em Laranjeiras, na mostra Mestres da Arte Popular.

A exibição reúne cerca de 120 peças de artesãos do agreste, a maioria à venda, e outras que compõem o acervo da galeria e só foram vistas anteriormente em exposições como a Mostra Comemorativa dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil, em São Paulo, e a Brasil Corpo e Alma, realizada no Museu Guggenheim, em Nova York.

Ana Maria Chindler, proprietária da Pé de Boi, há 28 anos garimpa esses achados em suas incursões pelo Norte de Minas e o Nordeste. Ela destaca, entre as criações, peças de Zé do Chalé, descendente dos índios xocós que começou a produzir depois dos 80 anos; Nino, um mendigo de Juazeiro do Norte, no Ceará, cujas obras, esculpidas em pedaços de madeira, receberam elogios do escultor norte-americano Richard Serra; e Manuel Eudócio, contemporâneo de Mestre Vitalino.

Para Ana, a maior dificuldade é despertar o interesse dos brasileiros para essas manifestações artísticas genuinamente nacionais. "O Brasil ainda tem um olhar de colonizado. O brasileiro gosta mais de olhar pra fora do que olhar pra si próprio", diz Ana. "As pessoas podem viajar pra Bali (principal destino turístico da Indonésia), e expor na sua sala peças da ilha, mas dificilmente vão ter um objeto indígena ou de arte popular naquele espaço", acrescenta.

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