Dona da performance

Na tela, em dois documentários, e ao vivo, Marina Abramovic faz do Brasil território de sua arte

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h11

Ela é o maior nome da performance no mundo. Marina Abramovic foi a grande atração do Festival do Rio na quinta-feira. Veio mostrar o documentário sobre sua retrospectiva no MoMA, de Nova York. Chama-se Marina Abramovic - Artista Presente e o diretor é Matthew Akers. No domingo, será a vez de Vida e Morte de Marina Abramovic Segundo Bob Wilson, em que divide a cena com Willem Dafoe, dirigida pela mulher do ator, Giada Colagrande.

Apenas 25 minutos com Marina podem ser transformadores. Ela é bela, de uma beleza particular. Tem os traços de Maria Callas, a máscara trágica. "Poderia viver para sempre na Grécia, tomando drinques que todo mundo me oferece porque acha que sou a cara dela." Marina veio muitas vezes ao Brasil - perdeu a conta. Visitou Serra Pelada nos anos 1980 e nunca desistiu de fazer uma performance sobre aquela experiência. Recentemente, esteve em Iporanga e Curitiba. Conheceu uma xamã. A mulher tocava seus cristais energéticos e dizia coisas sobre ela, mesmo sem saber quem era. Disse que era de outra galáxia e que sua missão na Terra era fazer com que as pessoas transcendessem sua dor.

Artista Presente é um pouco sobre isso. Marina selecionou artistas para reproduzirem suas performances clássicas. Ela própria ficou sentada durante três meses, da manhã à noite, no salão principal do MoMa. Num mundo em movimento, em que as pessoas correm freneticamente, ela propôs uma drástica parada. Mais de 750 mil pessoas sentaram-se diante dela, magnetizadas pela força daquele olhar. Muitas delas não resistem, e choram. Por que choram esses homens e mulheres, as crianças?

O rosto hierático não expressa nada. Como Greta Garbo no desfecho de Rainha Christina, o clássico de Rouben Mamoulian. Os semiólogos dizem que nada é tudo e o espectador projeta não importa o que nas linhas daquele rosto. O repórter não resiste: "Gostaria de só sentar aqui e ficar em silêncio." Ela responde: "Então, fiquemos." Mas é preciso falar, e um bom começo é o filme Pietà, de Kim Ki-duk, que passa no Rio. Marina integrou o júri, presidido por Michael Mann, que premiou o filme do diretor coreano com o Leão de Ouro no recente Festival de Veneza.

Admite que foi guerreira por Kim Ki-duk. "Que bom que você gostou. O filme lança um olhar muito forte sobre o mundo capitalista, sobre a usura, a perversão do dinheiro. Mas não é sobre isso. Há ali uma rara experiência humana de expiação pela dor, de transcendência. Embora seja um diretor norte-americano, formado na escola da ação, Michael (Mann) percebeu isso." O artista como guerreiro(a). Há uma frase sobre isso em Artista Presente. Ela explica. "Nenhum artista consegue impor sua arte, e a arte é sempre uma visão subjetiva de mundo, se não for guerreiro na conquista do seu espaço e do eu interior."

Ela repassa a própria biografia, o que também está no documentário de Matthew Akers. Nascida na antiga Iugoslávia do marechal Tito, é filha de dois militantes comunistas que a criaram com dura disciplina. Marina não se lembra de alguma vez ter recebido um abraço, uma manifestação de carinho da mãe. As manifestações de amor vieram da avó materna, uma mística que abriu um outro mundo para a garota. Ela se define como produto dessa divisão.

Sabe que a performance é entrega - visceral. Mas também é polêmica. Tem gente que acha que aquilo não é arte. O mal-entendido sempre a acompanhou e Marina revela que apenas nos últimos dez anos conseguiu ganhar dinheiro "para pagar as dívidas e viver com conforto". Dinheiro é um efeito colateral. O essencial é outra coisa. O salto sem rede. O arriscar-se. O testar seus limites. O encontro com o outro. De volta a Serra Pelada, ela diz que ainda sonha com aquilo. "Nunca desisto de minhas ideias, às vezes elas se transformam." Entusiasma-se ao saber que um diretor brasileiro - Heitor Dhalia - está recriando Serra Pelada no que promete ser um grande filme. "Aquilo era grandioso. Os caras se matavam pelo ouro, e não usufruíam a riqueza." Uma trágica metáfora do mundo moderno, reflete.

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