Don Neschling em Buenos Aires

Público reverencia apresentação de Don Giovanni, de Mozart, no Teatro Colón

Ariel Palacios CORRESPONDENTE BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2010 | 00h00

  O maestro John Neschling - regendo a Orquestra Estável do Teatro Colón - estreou na terça-feira à noite na capital argentina a ópera Don Giovanni, de Wolfgang Amadeus Mozart. Depois da apresentação em junho de La Bohème, de Giacomo Puccini, esta é a segunda ópera do Colón desde sua reinauguração em maio, após sete anos de obras.

O regente brasileiro era esperado com grande expectativa e a crítica especializada o definiu como "um diretor musical de luxo" e "o mais destacado diretor de orquestra do Brasil", além de ressaltar que foi o responsável pela inédita projeção internacional da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

O Colón estava lotado. Mais de um terço do exigente público portenho ostentava smokings e vestidos longos de gala. No entanto, a noite não contou com muitas celebridades, que tradicionalmente optam pelas apresentações das sexta-feiras e domingos.

Com seu rigoroso estilo sóbrio, Neschling permitiu que os cantores se exibissem sem a concorrência direta da orquestra. A plateia - composta principalmente de habitués do Colón e apreciadores estrangeiros de ópera - compreendeu e respaldou o estilo do carioca ex-regente da Osesp, aplaudindo-o com discreto entusiasmo. Não houve pedidos de bis, o que é costumeiro por parte dos fleumáticos frequentadores desse teatro. No entanto, para os altamente exigentes padrões do público do Colón, essa moderação pode ser considerada como uma "vitória" na maior sala de ópera da América Latina.

John Neschling é uma das várias estrelas convidadas para este ano de reabertura do teatro. Em junho, apresentou-se o violoncelista francês Yo Yo Ma. Em agosto, será a vez do regente argentino-israelense Daniel Barenboim. Em outubro, virá o indiano Zubin Metha.

Dramma giocoso. A montagem de Don Giovanni, um drama cômico, gênero que oscila entre o cômico e o trágico, é do alemão Michael Hempe. "Esta ópera é a superposição constante da tragédia e da comédia, elas estão todo o tempo juntas. É o caso da Ária do Catálogo, na qual a "diversão de Leporello é a tragédia de Elvira", afirmou Hempe, pouco antes da estreia.

Segundo o "régisseur", "a dificuldade de fazer um bom Don Giovanni é ter de lidar com a narração musical simultânea em dois níveis criada por Mozart".

Sob a batuta de Neschling, o personagem de Don Giovanni foi interpretado pelo baixo-barítono italiano Nicola Ulivieri. O fiel criado de Don Giovanni, Leporello, encarregado de salvar seu amo de diversas enrascadas, foi o baixo-barítono argentino Eduardo Chama, que arrancou aplausos do público por sua habilidade nas cenas cômicas, especialmente na ária Madamina (mais conhecida pelo nome informal de A Ária do Catálogo) na qual faz um prolongado e irônico censo das fulminantes conquistas de Don Giovanni em diversos países.

Repercussão. No intervalo, o Estado consultou a plateia sobre a atuação do maestro e dos cantores. "Gostei de Neschling, que tem um jeito sóbrio de reger e respeita a ópera. Fiquei curiosa para vê-lo em ação em uma peça sinfônica", declarou a estudante de arquitetura Estela Garrido. Ela destacou o desempenho do tenor canadense John Tessier, o mais aplaudido da noite: "Ele tem uma voz honesta, ideal para o papel de Don Octavio."

Após a apresentação, Ana Ezcurra, ostentando um elegante casaco de vison, disse: "Tudo está perfeito, desde o maestro até a mise-en-scène." Seu marido, Cláudio, empresário, fez uma observação do physique du rôle dos cantores: "Don Giovanni (Ulivieri) tinha porte atlético, excelente presença cênica e foi verossímil no papel do sedutor. Mas as camponesas eram magras demais, algo meio longe da realidade. Mas, pelo menos, não é mais como antigamente, quando uma soprano roliça interpretava uma tísica em La Traviata..."

Clássico. A ópera de Mozart - cujo nome completo é Il Dissolutto Punito, Ossia il Don Giovanni (O disoluto punido, isto é, Don Giovanni) - é um clássico em terras portenhas. A ópera, que estreou no Teatro Estatal de Praga em outubro de 1787, foi apresentada pela primeira vez em 1827 em Buenos Aires, capital na época das Províncias Unidas do Rio da Prata (a Argentina, formalmente, ainda não contava com seu atual nome). Essa apresentação, no Teatro Coliseu - no meio das guerras civis que assolavam o país - foi seguida por outra, em 1869, no velho Teatro Colón.

Don Giovanni voltou em grande estilo em 1908, na inauguração do atual Teatro Colón. Na ocasião, o tenor italiano Titta Ruffo interpretou Don Giovanni e o baixo russo Fiódor Chaliapin foi Leporello.

Lenda. Don Giovanni, composta por Mozart, tem libreto de Lorenzo da Ponte, que se inspirou na peça de teatro O Enganador de Sevilha e o Convidado de Pedra, atribuída ao espanhol Tirso de Molina.

A lenda indica que enquanto Da Ponte preparava o libreto de Don Giovanni, o próprio Giácomo Casanova - amigo do libretista - participou pessoalmente da preparação do enredo.

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