Don DeLillo encerra Festa de Paraty

Não sou um crítico, apenas tenho uma visão pessoal da sociedade que nos cerca - com tal afirmação, dita ontem, no último dia da Festa Literária de Paraty, de uma forma totalmente destituída de ironia, o escritor americano Don DeLillo ressaltou sua condição de um dos mais importantes autores da atualidade, cuja obra vem provocando estranhas reverberações entre a vida intensa de seus personagens e o universo da cultura pop na qual eles estão inseridos.O convívio com a realidade, ainda que não explicitamente, é importante em sua obra. Os livros de DeLillo vêm carregados de uma função premonitória, especialmente quando relacionados com os fatos. Cosmópolis, por exemplo, recentemente lançado pela Companhia das Letras, narra um dia na vida de Eric Parker, jovem empresário que percorre as ruas de Nova York dentro de uma limusine. Ao propor uma meditação sobre o tempo e o domínio do dinheiro em uma sociedade que se esfacela, a obra de DeLillo foi aclamada depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, época em que foi lançada. "Não vejo nada de premonitório", desconversa ele, em entrevista ao Estado, realizada antes da coletiva. "Apenas descrevi a trajetória de Parker em um dia em que ele, instintivamente, sabe que vai morrer."Assim como o historiador Eric Hobsbawm, que se tornou a grande sensação da feira com seus comentários precisos e pessimistas sobre o século passado, Don DeLillo também é arguto ao analisar a radical mudança sofrida pela sociedade americana com o terrorismo. "Até antes dos acontecimentos de 11 de setembro, os americanos acreditavam que podiam controlar o futuro", comenta o escritor, que chama essa sensação de "tempo acelerado". "Depois daquela data, porém, descobriu-se que o presente é muito mais surpreendente."A nova situação de alerta despertada pelo terrorismo, porém, é diferente da vivida pelos americanos durante a guerra fria. "Naquela época, a possibilidade de um cataclisma que destruísse o mundo parecia que podia acontecer a qualquer momento", comenta. "Agora, no entanto, o perigo é diferente: ainda vivemos a possibilidade de uma grande destruição, mas isso não afeta nossa rotina, pois continuamos fazendo nossas viagens e freqüentando nossas reuniões." Segundo ele, o terrorismo tomou conta da consciência dos países ocidentais de uma forma como nunca antes havia acontecido.Edição 2004 - Antes da palestra de DeLillo, programada para o final da tarde de ontem, os escritores Patrícia Melo e Marçal Aquino falaram sobre seus novos livros que, curiosamente, não elegem a violência como tema central. Patrícia escreveu Valsa Negra (Companhia das Letras), uma história envolvendo um maestro e uma violinista. "Procurei mostrar o lado sombrio do amor, que envolve destruição e ódio," disse ela. "Trata-se de um movimento cíclico do homem cuja força é usada tanto para criar, como para destruir." Já Aquino, que está lançando Cabeça à Prêmio (Cosac & Naify), buscava uma transição. "Depois de escrever sobre a violência de O Invasor, pretendi falar de duas histórias de amor que se cruzam," disse o escritor que, ironicamente, caracteriza o livro como "história policial B".O encerramento do festival foi feito pelo escritor Eduardo Bueno, que pretendia falar sobre a influência da corrida do ouro na história do Brasil. E especialmente na de Paraty. A última atividade da festa literária foi um show do cantor Tom Zé e uma queima de fogos de artifício. Para a próxima edição da festa literária, a editora inglesa Liz Calder, organizadora do evento, já conta com diversos apoios como o de editores e do British Council, que viabilizou a vinda de escritores como Julian Barnes, Hanif Kureishi e Eric Hobsbawm. Para e edição deste ano, Liz enfrentou diversos problemas para acertar um patrocinador conseguindo, na última hora, um acordo com a Semp Toshiba e Eletrobras. A única mudança esperada é na data da realização: para não coincidir com a volta às aulas, como aconteceu este ano, a feira deverá ocorrer no período entre junho e agosto do próximo ano. Liz não confirmou, como fizera antes, a vinda do autor canadense Michael Ondaatje.O repórter viajou a convite do British Council.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.