Don Byron o jazz que projeta o futuro

Provocador profissional, músico relê tradição da música gospel à luz do legado de Thomas Dorsey, um compositor dos anos 30

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2010 | 00h00

Maior renovador da linguagem da clarineta, o compositor, arranjador, saxofonista, clarinetista e crítico social Don Byron emergiu do Bronx para o establishment do jazz há duas décadas, transpondo barreiras de gêneros, reinterpretando de Stravinski a Henry Mancini, de Sly Sone a Earth Wind & Fire.

Don Byron fez arranjos para o Kronos Quartet e musicais de Stephen Sondheim na Broadway, e tocou ou gravou com Cassandra Wilson, Daniel Barenboim, Salif Keita e a Duke Ellington Orchestra. Compôs trilhas para o filme Kansas City, de Robert Altman, e para o desenho animado Tom & Jerry.

Ele toca no dia 22 de maio para o Bridgestone Festival, no Citibank Hall. Vai mostrar o resultado de uma imersão na música gospel. Professor do Massachusetts Institute of Technology, Byron falou ao Estado. "Meu sobrenome é herança da escravidão. Minha família veio do Caribe para os EUA, e davam aos escravos os sobrenomes ingleses mais populares na época. Havia um monte de Nelson, de Byron."

Qual é o propósito de o sr. abordar, desta vez, música espiritual?

Sou um homem espiritual, então é um propósito espiritual. Há muitos músicos que tiveram períodos de reflexão, muitos dos que eu admiro, então acho que estou nessa fase.

O sr. vem com um quinteto, com cantora e órgão. É suficiente para demonstrar o que pretende a respeito do gospel?

DK Dyson é uma cantora que aborda diferentes tipos de música popular. Todos esses músicos passaram por muitos gêneros, então são adequados.

As composições que norteiam seu álbum são do reverendo Thomas Dorsey. Por que Dorsey?

Porque ele realmente é o cara. Foi ele que ajudou a dar a conformação à música gospel que nós conhecemos hoje, juntando o blues secular com os spirituals, fazendo tudo acontecer. Projetou artistas como Mahalia Jackson e Sallie Martin.

Ele foi muito popular na primeira metade do século, não?

Não foi pessoalmente popular. Escreveu um monte de canções, que realmente se tornaram a base do gospel moderno, como Take My Hand, Precious Lord. Foi compositor interessante, que ajudou a criar a convenção do jeito que a gente pensa canções. Muito mais do que performer, ajudou a evidenciar a conexão entre o gospel e suas raízes afro-americanas, definindo seu lugar na cultura black.

O R&B é um tipo de produto da linha evolutiva do gospel?

Eu não diria isso. Eles não estão realmente cantando acerca daquele universo. Muito do que a gente chama de R&B é na verdade uma forma de se apropriar de muitos gêneros do pop e recolocá-los em circulação.

O sr. se formou como um músico clássico. Como conectar aquela formação com o gospel?

Não preconizo isso estilisticamente. Encaro a música gospel como compositor. E, quando eu a vejo como um instrumentista, não me remeto aos tempos de meu treinamento musical. São jeitos de pensar, harmonicamente, muito diferentes.

O sr. tocou como convidado no disco The Bright Mississippi, do pianista Allen Toussaint.

Em várias faixas, quatro. Ele é provavelmente um dos dois maiores músicos com quem tive a honra de tocar.

Quem é o outro?

Mario Bauzo. Trompetista e compositor que foi o meu mentor artístico.

E qual é a peculiaridade do sr. Toussaint?

Ele conhece um leque variado de gêneros, e toca muitos coisas com um conhecimento profundo, de gêneros folclóricos a canções da Broadway. Não só black music. E com uma bela técnica, seu toque no piano é singular. As turnês que fizemos juntos foram alguns dos momentos mais luminosos de minha carreira.

Lendo uma entrevista sua na revista The Scene, o sr. fala do teórico de teatro Lee Strasberg como uma influência.

Não estudei teatro formalmente, mas entendo a música como uma forma de atuação massiva. Quando eu via teatro, na faculdade, eu entendia que aquele tipo de técnica, como a de Stanislavski, e as formas de transmitir sentimentos poderiam ser importantes também no conceito que eu formava de apresentação musical.

Entre suas influências, qual o lugar de John Coltrane?

Meu objetivo tem sido modernizar a clarineta. Quando comecei a estudar, a clarineta era ainda muito definida pela Era do Swing. Aquele tipo de clarineta era limitado, e muito difícil de ser transposto para a modernidade. Havia, então, um grupo de saxofonistas que tinha se empenhado em modernizar o seu instrumento: Joe Henderson, John Coltrane, Gary Bartz. Aquilo me mostrou um caminho. Além disso, Coltrane sedimentou um estilo, como Miles.

O sr. gosta de gente que toca a clarineta hoje do mesmo jeito que na Era do Swing, como Woody Allen faz em Nova York?

Eu não estou interessado em nenhum tipo de visão arqueológica do jazz. Sou um jovem afro-americano e, para expressar algo, eu tenho de expressar de um jeito moderno, contemporâneo. Woody Allen não é afro-americano, ele pode pegar qualquer pedaço de História que o interesse. É o jeito que ele gosta, mas eu não gosto de expressar algo étnico fazendo isso. Quero representar como se fosse um manifesto da minha condição. Estou mais interessado em modernidade por essa razão. A maioria que toca esse tipo de música não é negra, e faz uma versão da música dos anos 30 que acha adequada. Eu nunca vou me colocar na música de uma maneira que seja exterior à minha condição étnica.

Entre jazzistas, Terence Blanchard é um dos que fazem muitas trilhas de filmes, como o sr.

Não sou um músico de jazz o tempo todo. Quando faço trilhas de filmes, penso como um compositor, não como intérprete de um determinado gênero.

Dizem que o sr. não é um grande entusiasta do rap, não tem o hip-hop em grande conta...

Não é verdade. Não trabalho com hip-hop, mas tenho contato com diferentes artistas do hip-hop, DJs, etc. No momento, estou interessado nesse tipo de música como professor, como educador, tentando mostrar como a primeira geração do hip-hop se remeteu a um tipo determinado de música afro-americana, e de onde ela veio. Não tenho nada contra o rap.

PROGRAMAÇÃO

Dia 19/5

21h: Christian Scott Quintet

22h15: Uri Caine & Barbara Walker

Dia 20/5

21h: Dee Alexander & Evolution Ensemble

22h15: Ahmad Jamal

Dia 21/5

21h: The Overtone Quartet (com Dave Holland, Jason Moran, Chris Potter e Eric Harland)

22h15: Piazzolla y Piazzolla (com Daniel Piazzolla e o sexteto Escalandrum)

Dia 22/5

21h: Melissa Walker & Christian McBride

22h15: Don Byron & New Gospel Quintet

DESTAQUES DO FESTIVAL

Uri Caine

Pianista

Um dos instrumentistas atuais dedicados à abolição da fronteira entre popular e erudito. Overtone

Supergrupo

Somente a reunião de Dave Holland e Jason Moran já seria estelar. Mas extrapolou.

Pipi Piazzolla

Baterista

Neto do homem, é um enfant terrible de uma família de revolucionários argentinos.

Barbara Walker

Cantora

Desconhecida por aqui, Miss B. é a espantosa voz que vem de New Hope, Pensilvânia.

Christian Scott

Saxofonista

"Uma nova onda no jazz, o anti-Wynton Marsalis", definiu um crítico. Novidade absoluta.

Christian McBride

Contrabaixista

Favorito de todo mundo nos anos 90, segue na linha evolutiva de Ray Brown.

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