Domingos Pellegrini lança anticandidatura à ABL

Alguém imagina um candidato a qualquer título ou cargo que desanca seus eleitores. Pois é exatamente isso que faz o escritor Domingos Pellegrini, que concorre à Academia Brasileira de Letras, na vaga que foi de Rachel de Queiroz, morta em novembro. A eleição ocorre no dia 11 de março. Ele se inscreveu no fim do prazo e concorre com outros dez candidatos, três dos quais dividem a preferência dos imortais, o historiador José Murilo de Carvalho, o publicitário Mauro Salles e o jurista Paulo Bonavides, menos conhecido do público mortal que os outros dois, mas que tem a vantagem de ser cearense, como sua antecessora.Em e-mail enviado ao Estado, Pellegrini, autor de sucesso, com mais de 20 livros, não poupa a instituição em que pleiteia assento e se diz anticandidato. "A eleição para a ABL é a mais provinciana do Brasil, mais que para vereador de pequeno município, pois nesta há quem vote conforme a consciência, enquanto na ABL parece que todos só votam se forem visitados e paparicados", escreveu ele. "O que me parece desqualificar os candidatos."Se assim é, por que se candidatou? Segundo ele, seu nome foi lançado à sua revelia pela prefeitura de Londrina, cidade onde vive, pois nunca havia cogitado da imortalidade. Ele compara seu caso ao do médico e escritor gaúcho Moacyr Scliar, eleito em julho do ano passado, cuja campanha mobilizou o Rio Grande do Sul. "Fui me informar e soube que Moacyr vinha preparando sua eleição havia dois anos, e só se inscreveu quando teve certeza da vitória, ficando o movimento social gaúcho de apoio como enfeite final", escreveu Pellegrini. Scliar nega essa versão. Ele disse ao Estado que, realmente, sua candidatura havia sido lançada dois anos antes, pela Associação Rio-Grandense de Imprensa, mas ele relutava por estar envolvido em outras atividades.Tradições, vícios e hábitos - Pellegrini critica também a forma como a campanha se desenrola e a forma de buscar os votos dos imortais. "Fiquei sabendo que a eleição da ABL é marcada por velocismo (velocidade de inscrição quando morre algum acadêmico, para pedir logo apoios antes que outros peçam). João Ubaldo me contou que recebeu um telefonema de candidato quando estava em enterro que abria vaga...", conta Pellegrino no e-mail. O escritor baiano confirma a história, que acredita ser corriqueira, mas não condena tal açodamento, pelo contrário, releva."Pode ser um comportamento chocante, mas compreensível e, de nenhuma forma, execrável, pois é fruto de uma ansiedade de quem valoriza a Academia", disse João Ubaldo Ribeiro, que só se surpreende com as expectativas de Pellegrini, a quem considera um bom escritor, com relação à instituição. "Não é uma casa de anjos, mas de seres humanos com tradições, vícios e hábitos, bons e ruins. Não se deve esperar dela o julgamento de magistrados. Além disso, é uma instituição privada, com algumas funções públicas e, dado ao pequeno número de eleitores, nunca mais que 39, tem pleitos complicados. Se em eleições maiores e mais importantes os motivos dos votos são os mais diversos, imagine numa instituição como a Academia."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.