Domingos declara seu amor ao teatro

Obra compila nove peças que o ator e autor encenou nos últimos 10 anos

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Certa vez, pelos idos de 1983, Domingos Oliveira ouviu de Fernanda Montenegro: "Esse negócio de teatro é muito simples: você escolhe o que quer fazer; às vezes é difícil, precisa de algum estudo, mas tem que escolher. Uma vez escolhido o que fazer, faça no limite, no paradoxo, no exagero, na loucura, leva às últimas consequências. Quem não gostar é porque não entendeu!"

Aconteceu à época da montagem de O Inimigo do Povo, o texto de Ibsen adaptado por Domingos. Foi o estímulo de que ele precisava para enfrentar o receio que tinha de dirigir e atuar ao mesmo tempo, e o prelúdio de uma nova fase em sua carreira, hoje de mais de 40 anos. O causo está em Minha Vida no Teatro, livro que Domingos escreveu e foi lançado pela Leya.

Não é biografia, mas a compilação das nove peças que ele estreou nos últimos dez anos, com comentários sobre cada uma, além de apresentação do autor e texto escrito por ele em 1986, no qual fala sobre o teatro em que acredita e sua relação com seus atores, e dá orientações para quem está começando.

"Eu pensei em chamar de Década, mas a Leya sugeriu Minha Vida no Teatro, como o livro do Stanislavski", conta ele, numa conversa no apartamento no Leblon que divide com a mulher, a atriz Priscilla Rozenbaum, a quem o livro é dedicado. "Pedem que eu faça uma biografia, mas nunca fui capaz. Biografia é você correr atrás de você mesmo, como um detetive atrás das pistas que deixou. O tempo passa como um rato na sala!"

Estão em Minha Vida... grandes sucessos de Domingos, como Todo Mundo Tem Problemas (Sexuais), em parceria com o psicanalista Alberto Goldin, e Confissões das Mulheres de 40, com a atriz Clarice Niskier. Tem peças de cunho psicológico/filosófico, como Jung e Eu (escrita sob encomenda para Sergio Britto) e político, caso de Confronto.

E também o que Domingos produz de melhor: suas reflexões sobre o amor, a vida, as relações humanas, a arte. "O teatro é um primado da imaginação. Tem pessoas que dirigem pelo não, eu dirijo pelo sim. Amo muito o ator. Aliás, eu amo muito, e ponto."

Uma variação do que disse Fernanda Montenegro quase 30 anos atrás. Aquela era uma época de intensa produtividade, em que Domingos criava três peças por ano. No total, desde 1963, quando escreveu e dirigiu Somos Todos do Jardim de Infância, foram 31; dirigiu ainda 32 de outros autores.

A Minha Vida no Teatro poderão se seguir novos volumes. "Tenho vários livros planejados, como uma adaptação livre de clássicos (Gogol, Molière, Shakespeare) que quero editar para jovens atores." Os planos incluem a busca por patrocínio para o filme Inseparáveis, continuação de Separações. Se não conseguir, afiança que fará de qualquer jeito: "Com celular, sem iluminador, de modo escandalosamente marginal."

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