Domingo, em noite histórica

Enquanto espera por José Carreras, que anunciou esta semana dois concertos em São Paulo, no fim do mês, o público tem amanhã e domingo encontro com o outro remanescente dos Três Tenores: o espanhol Plácido Domingo é a estrela de Simon Boccanegra, nova atração da série Met Opera no Cinema. Com Simon, Domingo fez história mais uma vez. Além de ser o tenor com o maior número de papéis no repertório, cerca de 115, é agora o primeiro a cantar o papel-título da monumental ópera de Giuseppe Verdi, escrito para a voz mais grave de barítono.

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

Não é mero capricho ? e a voz de Domingo com certeza possibilita a façanha. Importa aqui menos o fato de ele ter começado a carreira, nos anos 60, como barítono e mais o fato de que, ao longo de sua trajetória, sua escolha de papéis respeitou a evolução natural da voz, que foi ganhando cores mais escuras.

Tecnicalidades à parte, impressiona o seu desempenho. Domingo é um fenômeno. Às vésperas de completar 70 anos, comove o frescor e a energia da voz. A região mais aguda mantém o brilho de outras épocas e os graves ganham ressonância surpreendente. A atuação é emocionante, recriando todo o conflito do doge de Gênova, entre o dever político e o papel de pai.

Essa oposição entre o indivíduo e a sociedade é uma das marcas da obra verdiana, percebida em especial nas óperas que dedicou a tramas políticas como é o caso de Simon ou do Don Carlo. Ambas pertencem à fase madura do compositor ? no caso de Simon, a revisão da partitura foi feita por um Verdi já completamente à vontade no manejo do drama musical, com a ajuda do libretista Arrigo Boito, que reescreveu algumas cenas, resolvendo problemas textuais da primeira versão da ópera. Assim, momentos como aquele em que Simon conclama plebeus e nobres a se unirem em torno do objetivo da paz passaram a ser símbolo da união entre texto e música na busca pelo drama verdadeiramente musical. Em especial quando a regência está a cargo de um especialista como James Levine, que arranca da orquestra do Metropolitan sonoridade comovente.

Vá ver Domingo e se encante também com as atuações da soprano Adrianne Pieczonka e do tenor Marcelo Giordani. É, no fim das contas, a experiência da ópera no que ela tem de melhor a nos oferecer.

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