Domingão, a inimizade que durou minutos

'Você era crítico de cinema e me chamou de jovem canastrão argentino. E agora?'

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 02h00

Domingão. Assim o chamávamos na editora Abril e nos primeiros tempos da editora Três, quando a casa era pequena e quase vazia e, muitas vezes, saíamos em busca de uma cadeira para poder sentar e datilografar. Assim que entrei na revista Claudia, em 1966, fui chamado à sala de Domingo Alzugaray, diretor financeiro da Abril. O que ele quer de mim? Nem me conhece. Entrei, era um homem alto, imponente, olhos claros. Cara fechada, me disse: “Você agora vai saber o que é trabalhar comigo. Esperei por este dia. Em 1959, você era crítico de cinema no Última Hora, desceu o pau em mim, malhou o que chamou de jovem canastrão argentino no filme Meus Amores no Rio, com Susana Freyre, dirigido pelo Christensen. Eu sou aquele ator. E agora?”.

Pensei: nem entrei, já fui demitido. Em seguida, cara amarrada, ele me pegou pelo braço, me levou ao elevador, descemos, a Abril era vizinha ao Hotel Cambridge, na Avenida Nove de Julho, um dos melhores da cidade. O bar e restaurante era um point descolado. A minha breve “inimizade” com Domingo durou apenas alguns minutos. A amizade começou ali e durou décadas. Ao rever o filme, confesso, Domingo não era tão ruim, mas eu era “intelectual”, era “crítico”, defendia o cinema novo, Christensen era argentino (portanto inimigo) e quem beijava a linda Susana Freyre era o Domingo, não eu. 

Pouco depois dele e Luis Carta deixarem a Abril, em 1971, para fundar a Três, fui chamado para uma reunião: “Quer fazer uma revista diferente? A Planeta? Acabamos de comprar os direitos da Planète francesa”. Era uma das sensações do momento, criada a partir do sucesso do livro O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwells e Jacques Bergier. Os assuntos iam da alquimia às sociedades secretas, civilizações perdidas, existência das fadas, o mundo atrás dos espelhos, bruxas, as religiões, ciências ocultas ou esotéricas, com base em provas antigas (como os manuscritos do Mar Morto), livros de pesquisa de autores reconhecidos ou não. Tempos de ditadura, Médici, censura, assuntos proibidos.

Estava na hora de mudar. Topei e foi uma boa decisão, entrei em um campo novo, surpreendente, insólito. Fiquei anos na Planeta. O primeiro número vendeu 20 mil. O segundo 40. O terceiro 80 até estacionar em 120 mil mensais, um sucesso. O leitor precisava tirar a cabeça da política, do militarismo, das mortes e torturas. Planeta está aí, até hoje. Domingão, a cada número da revista se divertia e se assustava com os temas. 

A amizade com Domingão e Katia, linda mulher, forte, fortaleceu com o tempo. Curioso, os dois jamais viajavam juntos, cada um ia em um voo. Vi nascer Caco e Paula. Muitos reclamavam da mão fechada do Domingo nos borderôs, mas havia instantes surpreendentes. Em Paris, certa vez, eu precisava ir a Munique participar do lançamento da Lui (uma pré-Playboy) alemã, que seria depois lançada no Brasil. Sem terno, liguei para o Brasil, precisava comprar um. Luis achou melhor não comprar, o caixa estava baixo. Liguei para Domingo, ele autorizou: “Compre um chique, faça boa figura, compre, impressione o Daniel Filipacchi (então dos grandes líderes da imprensa francesa, dono do Paris Match, Pariscope, etc.). Comprei um de veludo preto (era inverno), usei anos.

 

Até a Três se implantar foi difícil, a batalha com a concorrência acirrada. Luis e Domingo se separaram (o terceiro da editora era Fabrizio Fasano, que tinha enriquecido com o uísque Old Eight e investiu por um tempo em mídia), foi formada a Carta Editorial que ficou com a Vogue, velho sonho de Luis Carta. Domingo tocou o resto, em sede própria na Lapa, em um prédio de tijolos aparentes, de quase uma quadra, onde eu me perdia quando ia visitar alguém. Ali, Tarso de Castro, o lendário criador de O Pasquim, encerrou sua carreira.

Emoção provocada pelo Domingão foi reencontrar na Três com Samuel Wainer, o criador de Última Hora, jornal que mudou o design da imprensa nos anos 1950 e foi extirpado pelos militares. Voltei a conviver com meu ex-chefe e ídolo, quando ele voltou de longo exílio na Europa. Combalido, mas procurando alavancar projetos.

Nada mais que lampejos, brevíssimos insights pessoais, amigáveis, de uma amizade de 51 anos. Meio século. Outro momento. Em 1982, fora da imprensa, eu morava em Berlim. Em outubro, Domingo e Katia foram à Feira do Livro de Frankfurt e, na volta, passaram três dias em Berlim. “Viemos te visitar.” Andamos nos ônibus duplos, fomos ao Muro, aos grandes museus e teatros, comemos e bebemos em todo tipo de restaurantes alemães, italianos, nórdicos, até o típico currywurst, a salsicha com ketchup e curry. O big boss, no fundo, manteve o temperamento do garoto de Victoria, Argentina, onde nasceu. 

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