Dominado pela adrenalina

Pelos relatos, esperava de 127 Horas, de Danny Boyle, um filme extremamente aflitivo, incômodo, mas não o achei. E isso não é um elogio. Boyle teve claras preocupações de enxertar a história com um dinamismo que ela não tem; afinal, nada mais conta além dos dias que se seguem à queda de um jovem solitário numa fresta do canyon de Utah, onde seu braço fica irremediavelmente preso entre uma pedra e a parede, até que precisa fazer o que você pode imaginar. O filme, então, é repleto de momentos videoclipados, com a tela dividida em três, e de closes "orgânicos", digamos assim, e partilhamos memórias e alucinações de Aaron (James Franco) que pouco dizem de sua personalidade.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

A situação obviamente prende a atenção e sustenta a tensão, à medida que vemos todos os detalhes consequentes do acidente, como sede, fome, frio, ataques de raiva e choro, tentativas de usar corda e de picotar a pedra, etc. Ótimo momento é quando tenta manter o humor simulando entrevista a um programa de auditório e ironiza sua vontade de ser um "herói americano" no contato com a natureza. Mas disso não passa. Ele sabe que foi burro ao não informar ninguém e ao não levar uma boa faca e um rádio ou qualquer outro aparelho de comunicação. Mesmo assim, não sente muita culpa - nem lhe passa pela cabeça o suicídio? - ou não verbaliza motivos; não sabemos por que, tendo pais bacanas, meninas interessadas e amigos sinceros, diz se sentir "em casa" no canyon a ponto de não ter a menor prudência. Tudo soa leve demais.

Parece, em suma, que o barato de Aaron é apenas escorregar nos paredões e mergulhar em lagos, como se a busca de adrenalina não viesse misturada com outras motivações mais sutis. Assim como nos outros filmes indicados para o Oscar, vemos mais um enredo que um personagem.

Rodapé. Leio nesse livro O Triunfo da Música, de Tim Blanning (Companhia das Letras), uma comparação entre uma frase do crítico William Mann sobre os Beatles, que seriam "os maiores cancionistas desde Schubert", e o que o historiador e colunista Paul Johnson classificou como "apoteose da estupidez", que seria o sucesso da banda com os jovens. Blanning diz que Mann é "o vencedor" porque a música dos Beatles mostrou "durabilidade", como se verifica agora. O livro todo é um argumento sobre a onipresença da música nos tempos atuais, em todos os meios de comunicação, e tem como qualidade essa noção de que o pop não deixa de ser uma extensão do passado, quando intérpretes como Liszt e compositores como Beethoven atingiram grande fama.

Amadureci lendo gente que partilhava com Paul Johnson essa sensação de que a cultura pop, principalmente de língua inglesa, sinalizava o fim da civilização, querendo dizer com isso a civilização europeia do período do Renascimento até o Modernismo, ou seja, de Giotto a Picasso, de Dante a Proust, de Bach a Stravinski, etc. Penso em autores que me marcaram como George Steiner, Saul Bellow, Ezra Pound ou Kenneth Clark - bem mais agudos que Johnson, que num ensaio chega a mandar Picasso para o inferno porque não saberia pintar a natureza como ela é... Penso também em alguns jornalistas, como Paulo Francis e Ruy Castro, que também declararam aversão aos Beatles e a toda a música composta depois de 1963.

Bem, adoro Beatles, principalmente as canções de 1967 a 1970, e hoje acho toda essa conversa sobre "fim da civilização" um tanto radical, apocalíptica, contaminada ideologicamente (seja por marxismo seja por conservadorismo). Mas um autor citar a frase de William Mann e não se dar ao trabalho de lembrar que depois de Schubert tivemos nada menos que Cole Porter, George Gershwin, Kurt Weill, Tom Jobim e todo um cancioneiro internacional que John Lennon e Paul McCartney seriam os primeiros a respeitar, é de chorar. E nunca é demais lembrar que os Beatles são exceções na história da música pop, até pela influência da tal "erudita", e que esse suposto triunfo do gênero está montado não sobre a arte duradoura, mas sobre o "quanto mais descartável melhor". Voltarei ao assunto.

Anatomia da tirania. A situação na Líbia ficou cada vez mais complexa, com clima de guerra civil, território dividido, centenas de mortes. O desfecho é imprevisível: o país pode se fragmentar, a monarquia islâmica pode voltar com força indesejável, etc. Mas o que ninguém vai desdizer - até porque sua longa permanência no poder é também responsável pela complexidade dos problemas - é o que se sabe sobre Kadafi, o amigo de Lula. Histórias ainda mais terríveis foram publicadas esta semana, mas basta ver aquela sua imagem num carro velho, vestido de beduíno, segurando um guarda-chuva e dizendo que não estava na Venezuela, para ver as semelhanças com os ditadores mais cruéis do século 20.

Os mesmos traços que descrevi certa vez aqui são evidentes: o orgulho paranoico, o temperamento irascível, a mente provinciana com pretensões intelectuais (seu Livro Verde consegue ser uma colcha de slogans ainda mais idiotas que o Livro Vermelho de Mao), o nacionalismo férreo (que sempre transfere aos outros países a culpa pelos problemas), a aversão à modernidade democrática, o machismo (que não impede seu filho de querer ver Beyoncé dançando em particular, Beyoncé que representa uma liberdade sexual que as mulheres líbias desconhecem), a fortuna pessoal, o humor negro, a manipulação das informações para o culto à sua personalidade. É um bufão cruel, que vê o povo como massa de manobra e sente prazer em mandar matar.

Já vai tarde, talvez tarde demais.

Por que não me ufano (1). Recebo email da assessoria do Ipea perguntando onde li que o instituto considera uma família que recebe R$ 1.500 de "classe média". Em 2008, como se sabe, FGV e Ipea divulgaram estudos que mostrariam que a classe média agora seria maioria no Brasil. Segundo a FGV, famílias que ganham cerca de R$ 1.000 a R$ 4.500 formariam essa classe que agora representa 51% da população. Para o Ipea, o critério de renda é o do IBGE, que diz que a classe C vai de R$ 1.500 a R$ 5.100. Mas preferi enviar como resposta uma frase do diretor do instituto, Marcio Pochmann, à Carta Maior: "Atualmente, quando se fala de uma nova classe média, estamos falando da emergência de uma classe média com rendimento de três salários mínimos, por exemplo".

Repito: uma família que ganha R$ 1.500 num grande centro urbano está longe da definição histórica de classe média, que não é a faixa central das estatísticas de renda. Há muitas conceituações mundo afora, mas convergem para a seguinte: a classe média não gasta o que ganha apenas em alimentação, transporte, roupa e outros itens básicos (luz, água, gás); investe uma parte em adquirir casa própria e carro, em dar aos filhos educação superior, etc. É óbvio que existe uma "classemedianização" desde o Plano Real, com aumento do emprego e do consumo das camadas mais baixas, mas dourar a pílula para fazer propaganda não adianta. Um cidadão com três salários mínimos vive mal, bem mal. Mas o PT agora acha R$ 545 um número justo, pois o governo é perdulário.

Por que não me ufano (2). Estou no supermercado perto de casa e a moça do caixa está passando os produtos no código de barra. Lembro a senha do cartão de pontos, mas ela diz que já é tarde, que teria de passar todas as mercadorias de novo. Pergunto: "Mas não existe a opção de lançar o valor total no cartão, depois da soma?" Ela diz que não, que ela pode cancelar a compra, mas não pode fazer nada mais. E completa: "O sistema não deixa. Ou é no começo ou não tem mais jeito".

Falo com a gerente do banco sobre um aumento repentino da taxa de juros incidente sobre o saldo negativo da conta corrente. Era 6%, passou para 8%. Digo que é um absurdo, que no mínimo os clientes deveriam ser informados. "Vou ver o que posso fazer", ela diz. Eu: "Como assim?" Resposta: "Pode ser que eu consiga baixar. Vou entrar no sistema e ver se dá". Obviamente, fico sabendo mais tarde que ela não conseguiu. "O sistema não deixou."

Quando eu era adolescente, amigos mais velhos e engajados usavam e abusavam da frase "A culpa é do sistema", querendo dizer, por exemplo, que um ladrão rouba porque o sistema capitalista o leva a isso, com sua exploração do trabalho, etc. Hoje, com a mesma frase, na variante "O sistema não deixou", somos explorados de forma diferente. Ninguém tem mais autonomia nenhuma; as hierarquias ficaram mais rígidas e os consumidores são tratados como números, sem nuances entre si. Quem define as regras são os programadores dos sistemas, que tornam as ordens da cúpula tecnologicamente incontornáveis.

À maioria dos empregados, em suma, cabe apenas clicar os botões certos, sem poder duvidar ou contestar. Num país onde o raciocínio metódico, sistemático, é raro, nem lhes ocorre pensar em alternativas. Tudo vem de cima para baixo.

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