Dominação e poder em uma história de resistência

Augustine recupera relação do médico francês Jean-Martin Charcot, professor de Freud, com paciente

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2013 | 02h11

Vincent Lindon gosta de dizer que, como ator, é uma espécie de ladrão. O que ele mais gosta de fazer na vida é observar as pessoas - em cafés, restaurantes, na rua. Sorrateiramente, sem que elas percebam, ele vai se apropriando de gestos que transforma em ferramentas para seu ofício. E não importa o personagem nem o filme. Pode ser o professor Jean-Martin Charcot de Augustine, de Alice Winocour, que estreia hoje.

Você não precisa ser ligado em psicanálise, mas Augustine narra os primórdios da investigação do inconsciente. Remete a um mestre do próprio Sigmund Freud - Charcot. Você pode pensar que, neste caso, Vincent Lindon talvez tenha aberto uma exceção. Como se trata de um personagem real, e de uma figura importante na história do pensamento, ele, quem sabe?, talvez tenha feito alguma pesquisa? "Nãããoooo. Baseei-me no roteiro e criei meu Charcot como qualquer outro. Para mim, ele é um burguês. Tudo o que precisava era de sua casaca. A maneira como uso a casaca, como a abro ou fecho, é só disso que preciso."

Lindon contou isso ao repórter em Paris, durante os encontros do cinema francês promovidos pela Unifrance, logo após o Festival de Cannes, em maio. E, logo depois dele, o repórter falou com a diretora. Alice Winocour, pelo contrário, fez uma extensa pesquisa sobre Charcot. Mas, como ela conta, "documentei-me para poder exercitar minha liberdade. Não fiz um documentário mas uma ficção. Por mais documentado que tenha sido, o filme é meu exercício de liberdade."

Alice teve o privilégio de ter um curta premiado perlas Fondation Groupama Gan em Cannes. Isso lhe abriu portas, mas a história que ela quis contar - a de Augustine - não era exatamente aquela que o "mercado" esperava de uma jovem realizadora. Ajudou muito o fato de ela haver enviado o roteiro a Vincent Lindon, um astro na França, e ele imediatamente ter dado seu aval. Augustine passa-se no inverno de 1885, em Paris. Charcot, no Hospital Pitié-Salpetiètre, investiga uma nova doença - a histeria. Augustine é sua paciente preferida e ele a submete a sessões de hipnose. Aos poucos, o objeto de estudo torna-se objeto de desejo para o médico.

Foi o que interessou à diretora. "Essa história é muito rica e fui descobrindo implicações cada vez mais complexas, em minha pesquisa. Charcot era casado com uma mulher muito rica (Chiara Mastroianni, mulher de Lindon na vida). Augustine vinha de um meio pobre. A relação dos dois, e o uso que ele faz dele é consequência da situação social de ambos., O filme aborda a luta de classes, mas isso é só parte do meu interesse. Minha motivação está no fato de que Augustine, o objeto, reage à dominação de Charcot. Investigo a mente para falar do físico - o que me interessa, pois é um tema absolutamente contemporâneo, é a resistência dessa mulher à dominação masculina."

Há um lado, digamos, gótico nessa história. A forma como Augustine, privada de sua liberdade, conhece o horror. "Acho que, no limite, essa é uma história sombria de sexo e poder."O repórter evoca o universo das irmãs Brontë. "Não digo que tenham sido inspirações conmscientes, mas elas com certeza fazem parte do meu imaginário."

AUGUSTINE

Direção: Alice Winocour.

Gênero:Drama (França/2012, 102 minutos).

Classificação: 14 anos.

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