Dom Salvador volta ao Brasil, mas só em disco

Mestre do samba-jazz radicado em NY está com novo álbum, o primeiro trabalho dele no País em 35 anos

Roberta Pennafort, do Estadão,

18 de julho de 2007 | 10h57

Dom Salvador está de volta. Não, o lendário pianista do Beco das Garrafas não deixou para trás Nova York, onde mora desde 1973, para retornar à pátria amada. Seu samba-jazz é que virou disco - o primeiro gravado no Brasil desde sua partida: Dom Salvador Trio, lançamento da Biscoito Fino, em que ele toca com Sérgio Barrozo (baixo) e Duduka da Fonseca (bateria). São 12 músicas dele, e em uma delas, Unificação, o mestre teve como parceiro Marco Versiani, com quem já havia se juntado em composições anteriores. O estilo? Jazz afro-brasileiro, receita que leva um pouquinho de tudo (samba, jazz, bossa nova, baião), na definição do próprio músico. Trata-se da mesma mistura que há 30 anos encanta os freqüentadores do River Cafe, casa do Brooklyn na qual Salvador começou a se apresentar pouco depois de chegar a NY. Atualmente, ele dá expediente por lá quatro vezes por semana. Cheio de gás aos 67 anos, ainda se apresenta em eventos fechados no Water Club, em Manhattan. O projeto do CD estava nos planos de Salvador "há três ou quatro anos". Ele queria resgatar o balanço do Rio 65 Trio, o grupo de samba-jazz que integrou, nos anos 1960, com Édison Machado - o grande baterista brasileiro, considerado fundamental à bossa nova - e o baixista Sérgio Barrozo, ídolo de gerações de instrumentistas. Barrozo está a seu lado no disco; Machado, que morreu em 1990, foi substituído por Duduka da Fonseca, outro que fixou moradia nos Estados Unidos. "Tinha de ser alguém que entendesse bem de samba-jazz. Duduka ouviu muito o Édison, absorveu toda sua concepção e trabalha com isso há 30 anos", diz Salvador, muito satisfeito com o resultado do encontro. Por telefone, o pianista - que participou de shows e discos antológicos da bossa nova - conta que este CD brasileiro demorou a sair porque o trabalho nos EUA o absorveu muito. E tem mais: em seu país, ninguém parecia muito interessado no que seu piano tinha a dizer. "Fiquei muito concentrado no que faço aqui e não tinha motivação para voltar. Quando saí do Brasil, a música tinha mudado muito, o que é normal, com a vinda de uma nova geração." Não há, em sua voz, um fiapo de mágoa com o Brasil. No mês passado, ele teve a felicidade de ser homenageado em sua Rio Claro (interior de São Paulo), que lhe concedeu o título de cidadão emérito. "Foi uma festa enorme, tinha mais de duas mil pessoas. Não passava pela minha cabeça que seria assim. Reencontrei amigos que não via há muitos anos", relembra, com carinho. Também este ano, fez uma pequena temporada brasileira. Foram sete apresentações, no Rio e em São Paulo, todas disputadas. "Foi emocionante voltar a tocar no Brasil. Os shows estavam lotados; vi muitos jovens." Com cidadania norte-americana e falando português com a musicalidade da língua inglesa (ele nega; jura que, se tem sotaque, é de Rio Claro), Salvador considera que seu jazz é muito mais brasileiro hoje no que na época do beco de Copacabana. "Quanto mais a gente se afasta no nosso país, mais perto fica espiritualmente. Estou cada vez mais próximo das minhas raízes."

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