Dom Quixote em palavras, sons e imagens

Mesmo quem nunca leu, conhece o personagem principal do livro Dom Quixote e Suas Novelas Exemplares. Escrita por Miguel de Cervantes Saavedra e publicada em 1605, a obra criou o romance moderno, em que Cervantes desfez a regra da retórica e misturou os gêneros existentes até então (do romance de cavalaria ao picaresco e ao pastoral). "À medida que o tempo passa, aumenta o débito da humanidade para com Cervantes", acredita Juan Manuel Casado Ramos, diretor do Instituto Cervantes de São Paulo. "Sua obra é multidisciplinar e ainda incentiva artistas de diversas artes." É baseado em tal conceito que o instituto abre hoje, em sua sede na Avenida Paulista, uma grande programação que, além apresentar a atualidade da figura de Dom Quixote, já prepara os festejos de 400 anos da primeira publicação livro, que ocorrerão no próximo ano. Até o dia 1.º, Cervantes: Re-visões do Século 21 vai oferecer um amplo painel com exposição de gravuras, leituras dramáticas, ciclo de conferências, apresentação musical e exibição de filmes. "Será possível observar como a obra de Cervantes não apenas influenciou a literatura, como também a moda, a culinária e a arte de traduzir", comenta Ramos. Um dos grandes nomes convidados para as palestras é o do historiador espanhol Emílio Sola, que chegou ontem a São Paulo. Professor na universidade de Alcalá de Henares, terra natal de Cervantes, Sola faz hoje, às 19 horas, a conferência inaugural em que vai analisar a relação de Cervantes com o Mediterrâneo. Sabe-se pouco sobre o escritor, mas ele ingressou no exército e, em 1575, foi aprisionado por corsários, passando cinco anos no cativeiro em Argel - resgatado por 500 escudos, retornou à Espanha e tentou retomar a carreira literária. "Será possível descobrir, por meio da palestra, como funcionavam as relações sociais e comerciais da época", observa Ramos. Outro ponto de interesse de Cervantes: Re-visões do Século 21 é a exposição O Quixote Ilustrado. Desde a primeira publicação do livro, a figura esguia do cavaleiro andante inspirou numerosos gravuristas, muitas delas destinadas a ilustrar as sucessivas edições da novela. "Os desenhos oferecem diversas interpretações sobre diferentes passagens do Dom Quixote", conta Ramos. A exposição examina as imagens mais requintadas das principais edições espanholas. Até o fim do século 18, a Real Academia Espanhola patrocinou e dirigiu uma luxuosa edição. Foi ilustrada em suas quatro volumes e, depois de alcançar grande êxito de público, foi novamente editada, em 1782, em um formato mais simples, e novamente desenhada em 1797. Naquele século 18, o romance recebeu inúmeras interpretações, o que é evidenciado pelas gravuras, que permitem ainda detectar a evolução em sua recepção entre críticos e leitores. E a mostra permite ainda um estudo do principal procedimento de gravura utilizado na época da ilustração: a talha doce. "Como contraste, as gravuras poderão ser comparadas com os grafites feitos por alunos do Projeto Quixote, entidade que busca desenvolver a cidadania de jovens em situações de risco", comenta Ramos, lembrando ainda da palestra em que o médico psiquiatra Carlos Amadeu Botelino Byington vai analisar o enigma quixotiano sob a psicologia junguiana e da conversa em que Sérgio Molina, tradutor da mais recente versão de Dom Quixote, lançada pela Editora 34, vai tratar das transformações do mundo cervantino. "No início do novo século, o trabalho de Cervantes continua incentivando visões angulares." Cervantes: Re-visões do Século 21. Espaço cultural Instituto Cervantes. Av. Paulista, 2.439, tel.: 3897-9609. 11h/20h. Até 1.º/10. Abertura hoje. Grátis.

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