Dolores de amor

Vida breve, arte intensa. A história da música popular está recheada dessa combinação que faz os que morrem jovens virarem mitos. Dolores Duran (1930-1959) foi um ícone brasileiro dos dourados anos 1950. Brilhou intensamente no glamouroso Rio de Janeiro da época, mas não por muito tempo. Tinha um problema congênito no coração, que parou de bater no dia 24 de outubro de 1959. Exausta depois de uma noitada com amigos, ela chegou em casa às 7 horas da manhã, recomendando à empregada: "Não me acorde. Estou muito cansada. Vou dormir até morrer."

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Essa saída de cena fatalista, combinada com as obras-primas da melancolia que compôs - como Solidão, Castigo, Fim de Caso, A Noite do Meu Bem - contribuíram para criar no imaginário popular a figura da mulher densa, carente, solitária, cheia de dor de cotovelo. Dolores, porém, tinha noção de equilíbrio entre o drama e a serenidade com absoluta elegância. E tinha um jeito de cantar e dançar sempre muito animada no palco.

Poucos e bons. Na esteira da comemoração de seus 80 anos (ela nasceu no dia 7 de junho de 1930), a EMI lança a caixa Os Anos Dourados de Dolores Duran (EMI) com oito CDs - produzida por Rodrigo Faour - contendo todas as suas gravações como intérprete (incluindo a faixa inédita Mes Mains, do repertório de Gilbert Bécaud) e as 35 canções autorais, 28 das quais por outras grandes vozes. Ela só teve tempo de registrar apenas 7 composições próprias. São 75 faixas gravadas entre 1951 e 1959.

Dolores gravou poucos discos, compôs menos canções ainda. Porém, seu legado autoral - sozinha ou com parceiros como Tom Jobim, Carlos Lyra, Billy Blanco, J.Ribamar, Fernando César e Edson Borges - é dos mais coesos e profundos, seja como letrista ou melodista. A lembrança da grande cantora que foi acabou, ao longo dos anos, se desbotando na memória coletiva. Daí a importância reveladora desses CDs para gerações que não conviveram com ela.

Dançante. Eclética, Dolores, que como cantora não ficou tão popular como suas contemporâneas, mas era igualmente sublime, deixou a impressão de seu belo timbre em diversos ritmos e idiomas além do português: espanhol, italiano, francês, inglês, alemão. É de se questionar pra que alguém decide gravar um fado em esperanto, como é o caso de Coimbra, transformado em fox, no 1.º LP, Dolores Viaja (1955). Na época era comum os cantores fazerem discos do tipo "volta ao mundo", visando a se aproximar de toda espécie de público.

Outra moda nos anos 50 eram os discos com os sons do momento, feitos para embalar os casais nas pistas. Como lembra Faour, "naquele tempo não havia fita cassete para gravarmos nossas músicas favoritas, então, os discos que traziam o melhor do hit parade eram um must para animar festas."

Como crooner de boate, ela gravou dois volumes de Dolores Canta Para Você Dançar em 1957 e 1958. Entre os sucessos estavam baladas, baião em italiano (!), rock-calipso, sambas-canção como Por Causa de Você (a primeira parceria dela com Tom Jobim) e Conceição, que Cauby Peixoto imortalizou. E muitos boleros, valsas e suingados e divertidos sambas de Billy Branco, como Se Papai Fosse Eleito e Feiura Não É Nada.

Alegre. Romântica sim, mas Dolores tinha seu lado bem-humorado, como se nota também em seu último disco, o temático Este Norte É Minha Sorte (1959), recheado de baiões, toadas e xotes. Além desses quatro LPs, a caixa traz três compilações. Duas - A Noite de Dolores e Estrada da Saudade - saíram originalmente em vinil em 1960, reunindo faixas de 78RPM, como My Funny Valentine (Rodgers/Hart). A divina Ella Fitzgerald teria dito que foi a melhor interpretação que ouviu dessa canção.

Já o CD duplo O Negócio É Amar reúne as 28 composições autorais que Dolores não gravou, como Estrada do Sol, Ternura Antiga, Ideias Erradas e outras por Elizeth Cardoso, Sylvia Telles, Nana Caymmi, Lúcio Alves, Dick Farney, Isaura Garcia, Clara Nunes... Novos expoentes da canção brasileira, Márcia Castro e Márcio Gomes comparecem com duas gravações inéditas. É muita coisa rara.

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