Doisneau no mundo dos turbinados

Lembrado pela imagem icônica do beijo, fotógrafo ganha retrospectiva de seu trabalho na Renault

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

26 de outubro de 2009 | 01h00

 

SÃO PAULO - O fotógrafo Robert Doisneau (1912-1994) era a típica figura do flâneur descrita por Baudelaire. Quando jovem, saía com sua câmera pelas ruas de Paris fotografando tudo o que lhe parecia curioso, focando ora no detalhe de um objeto ora num passante menos apressado. Humanista, como Cartier-Bresson, preferia fotografar pessoas em seu cotidiano, mas necessidades financeiras invariavelmente conduziram seu olhar para os objetos. Começou como assistente de câmera do escultor Andrei Vigneaux, após breve passagem pelo departamento de publicidade de uma indústria farmacêutica e, aos 22 anos, contratado pela fábrica de automóveis Renault, ficou encarregado de vender a imagem de luxuosos carros e registrar o dia a dia da fábrica de Billancourt. São 106 dessas fotos que a mostra A Renault de Doisneau traz para o Centro Cultural Fiesp a partir de hoje com curadoria da historiadora e curadora do acervo da empresa, Ann Hindry.

 

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São imagens curiosas que, a despeito de sua origem institucional, constituem documentos poderosos da vida na França antes e depois da guerra. Doisneau trabalhou para a montadora francesa em dois períodos, de 1934 a 1939 e de 1946 a 1955. No primeiro, tudo parecia andar bem, não fossem os atrasos constantes e a indisciplina do fotógrafo, que acabou demitido. A uma coleção impressionante de fotos de carros, maquinário pesado e operários, Doisneau acrescentou imagens de socialites com roupas extravagantes ao lado de modelos sofisticados e alegres jovens em conversíveis a passear por Paris, numa celebração hedonista sobre quatro rodas.

 

Não era o que Doisneau mais gostava de fazer, ele que participou de tantas greves operárias - sem fotografá-las, para não prejudicar os colegas grevistas. Além disso, como integrante da Resistência Francesa, ajudou centenas de perseguidos, forjando passaportes falsos com sua habilidade manual e conhecimento de gravura. Não sem razão, as imagens da Ocupação alemã e da libertação de Paris figuram entre seus trabalhos mais comoventes. Poucos fotógrafos traduziram tão bem a alegria do fim da 2ª Guerra.

 

A virada de Doisneau se deu justamente por essa época. Em 1946 ela já vendia fotos para a revista norte-americana Life e dava seus primeiros passos como fotógrafo de moda quando a Renault o chamou de volta, desta vez como fotógrafo freelance. Badalado pela alta roda parisiense, ele criou imagens publicitárias dos principais modelos da montadora, recorrendo a cenários idílicos dos parques parisienses, que tanto explorou em suas fotos de moda para a Vogue. Mas era apenas um trabalho. Doisneau nunca suportou a classe dominante, preferindo o convívio dos operários - daí a exposição da Fiesp privilegiar o primeiro período de trabalho do fotógrafo na Renault.

 

No entanto, foi durante o segundo período que Doisneau produziu sua célebre foto do casal se beijando diante do Hotel de Ville, a prefeitura de Paris, em 1950 - uma das imagens icônicas da história da fotografia, que não seria um flagrante, mas uma montagem, como a do combatente da Guerra Civil espanhola registrado por Robert Capa. É difícil crer que Doisneau tenha forjado a cena, considerando o apego que ele, como flâneur, tinha pelo inesperado. "Nenhum diretor de cinema poderia armar o inusitado que vemos nas ruas", disse, um dia, o fotógrafo, marcado pela influência de fotojornalistas como Kertész e realistas como Atget e Cartier-Bresson. Especialmente o último, segundo a curadora da mostra, Ann Hindry.

 

"Também não podemos esquecer a presença de Brassaï nas composições urbanas de Doisneau", observa a curadora, acrescentando que, a exemplo do mestre, ele tinha uma visão romântica do mundo, expressa em efeitos como raios de sol sobre as árvores após a chuva ou seus reflexos no asfalto - sempre com um carro vazio dominando a paisagem, como se quisesse mostrar a máquina como uma segunda natureza do homem. "Ele adota como referência a série de Brassaï, Paris à Noite, de 1933, ao fotografar a pista molhada pela chuva e todo o primeiro plano ocupado por ela." A mostra tem inúmeros exemplos de construções formais de Doisneau, que não obscurecem o lado humanista de um fotógrafo que, ao lado de Robert Frank e outros, fazem parte da coleção Renault.

 

Operário como seu modelo ético 

 

Feitas sob encomenda, nem por isso as imagens criadas por Robert Doisneau para a Renault deixam de ser testemunhos de uma ideologia pessoal que viu na vida operária um modelo ético a ser seguido, como mostra a imagem acima, a de um trabalhador na oficina de estamparia da montadora francesa em Billancourt, 1935. Ao ser despedido da Renault em 1939, Doisneau não se entregou imediatamente à fotografia de moda. Foi lutar como soldado da Resistência, falsificando documentos e ganhando seu sustento com cartões postais.

 

Logo após a guerra, de 1948 a 1951, Doisneau fotografou para a Vogue um pouco a contragosto, não por conta da moda, mas pela antipatia dos ricaços que passaram a usar o profissional como veículo de promoção. Ele voltou-se para as ruas parisienses em busca de material para novas séries, enfrentando as limitações do pós-guerra - especialmente a escassez do papel fotográfico e os filmes de má qualidade. Doisneau superou tudo isso. Suas fotos conservam o requinte de um olhar genuíno e até ingênuo. Ele dizia que era preciso ser um pouco estúpido para perceber coisas que os intelectuais deixavam de notar por excessivo uso da razão. Doisneau queria emocionar o mundo. E conseguiu. Sua foto do beijo no Hotel de Ville é a mais famosa de toda a história da fotografia francesa.

 

Serviço. A Renault de Doisneau. Centro Cultural Fiesp. Avenida Paulista, 1.313, 3549-4499. 10 h/ 20 h (dom. até 19 h; 2.ª, 11 h/ 20 h). Grátis. Até 6/12

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