Dois retratos polêmicos da juventude

Em Cannes, François Ozon surpreende com o sexy Jeune et Jolie e Sofia Coppola traz história real, em The Bling Ring

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2013 | 02h09

François Ozon pertence à geração pós-nouvelle vague do cinema francês. Filma muito e consegue manter uma qualidade média apreciável. Às vezes, surpreende. É o caso de Dentro de Casa, em cartaz nos cinemas brasileiros. Ozon participa da competição de Cannes com outro belo filme, Jeune et Jolie. Não é tão bom quanto Dentro de Casa, mas revela a atriz que leva jeito de virar a musa do 66.º Festival de Cannes. Marine Vacth. Ela faz uma jovem de 17 anos que, no começo do filme, é vista pelo olhar do irmão. Ele a espia - com o namorado, masturbando-se em casa. A própria Isabelle - é seu nome - é voyeuse e vive olhando filmes pornográficos na internet.

Isabelle de cara perde a virgindade. É verão, ela está na praia com a família, mas não há nada de romântico - um amor, talvez - na entrega da garota. De volta a Paris, ela se prostitui. Um filme norte-americano com certeza buscaria motivos para o desajuste da jovem. Isabelle não necessita de dinheiro, por que se entrega a homens mais velhos? Complexo de Electra? O pai, há uma breve referência no diálogo, é alcoólatra, mas Ozon não vai por aí. Ele deixa lacunas para o espectador. Isabelle, com o codinome de Léa, é sua Bela da Tarde.

A situação segue tranquila - com algum sobressalto: um cliente mais violento -, até que o mais regular dos frequentadores de Léa morre durante a sessão de sexo. Ela se apavora, foge, a polícia descobre sua identidade. A mãe, chocada, descobre o que faz a filha. Como continuar essa história? Em sucessivas entrevistas ao Estado, Ozon já admitiu que é cinéfilo. Não é o primeiro a beber na fonte de Luis Buñuel, mas a descrição da perversidade do meio burguês - Isabelle suspeita de que a mãe é amante de um amigo do padrasto - tem um quê da visão crítica de um Claude Chabrol.

Tudo muito interessante, com uma trilha ótima de canções de Françoise Hardy dos anos 1960 e 70, tão integradas à trama que parecem ter sido criadas para ela. E, claro, a atriz - Marine, que tem um jeito de Julia Roberts perversa (lá do começo da carreira).

Ex-modelo, Marine convence num papel que não é fácil. O filme também tem uma habitué de Ozon, Charlotte Rampling, mas é melhor guardar o segredo - a chave do filme passa por ela, como você poderá confirmar quando Jovem e Sexy chegar ao Brasil.

Sofia Coppola trouxe outro retrato da juventude contemporânea, mas não para a competição. Seu novo longa, The Bling Ring, abriu a mostra Un Certain Regard. Baseia-se numa história real que agitou Hollywood há alguns anos. A diretora, que também assina o roteiro, baseou-se num artigo de Vanity Fair sobre o assunto. Quatro garotas e um rapaz - a líder do grupo é uma coreana/americana - especializam-se em assaltar casas de celebridades. O grupo busca na internet suas informações. Sabendo que a casa está livre, eles a invadem para roubar itens de luxo.

Eles chegam a roubar cerca de US$ 3 milhões em roupas de grife, objetos, joias. Tudo vai imediatamente para o Facebook, mas as famílias nem suspeitam. A polícia chega à quadrilha por meio de vídeos de segurança das casas. O garoto vira celebridade na internet, com um monte de seguidores. Emma Watson, a amiguinha de Harry Potter, faz uma das garotas. Sofia Coppola deu mais autógrafos que Leonardo DiCaprio na saída da sessão de imprensa. É uma diretora estilosa - fashionable. Desde As Virgens Suicidas, ela vem filmando a malaise da juventude dos EUA (com uma breve interrupção para a 'austríaca' Maria Antonieta). Seu olhar é neutro sobre esses jovens. Belos e vazios. Ozon pelo menos usa um poema de Rimbaud, como material de classe, para entender a angústia sem psicologizar.

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