Dois países, dois artistas notáveis e sem fronteiras

For the Love of It é um dos mais extraordinários lançamentos de 2013

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2013 | 02h09

A Caríntia é um estado do sul da Áustria, que faz fronteira com a Eslovênia. Ambos comungam as mesmas raízes culturais e artísticas; nelas misturam-se o alemão e o esloveno. As fronteiras, portanto, são artificiais. Como são, igualmente, as que separam em cerquinhas os vários gêneros musicais. Dois artistas notáveis - um da Caríntia, outra da Eslovênia - reúnem-se, em plena maturidade, para construir juntos uma espécie de arqueologia sonora da região.

For the Love of It é um dos mais extraordinários lançamentos de 2013. De um lado, conta com a cantora argentina de raízes eslovenas Bernarda Fink; de outro, está Wolfgang Puschnig, caríntio. Ambos compartilham igualmente a idade: 57 anos. E, claro, a paixão desmedida por sua região ancestral.

Bernarda Fink estudou canto na escola do Teatro Ccolón, em Buenos Aires. Hoje é uma das grandes mezzos internacionais. Já atuou nos mais seletos palcos líricos do mundo. E possui um repertório que vai do barroco ao contemporâneo em dezenas de gravações. Wolfgang Puschnig nasceu em Klagenfurt, na Caríntia. Estudou saxofone e flauta no Conservatório de Viena. Fundou e permaneceu na Vienna Art Orchestra entre 1977 e 1989; em seguida, firmou-se como um dos grandes jazzmen europeus atuais.

Para este projeto, Bernarda e Wolfgang reuniram um time de notáveis músicos de jazz, como o violinista Mark Feldman e o contrabaixista Mike Richmond. E formações tipicamente austríacas, como o quarteto vocal masculino Schnittpunktvokal e os Flautistas de Viena.

Se você pensa que o resultado é uma salada, errou. O tempero de ingredientes tão díspares é refinado. As sutilezas sonoras já estão presentes na primeira canção, tradicional da Eslovênia. Intitula-se Pod Klanckom. A letra fala em dois apaixonados se entreolhando com ternura e lágrimas nos olhos.

Puschnig assina a segunda canção, a mais ambiciosa e musicalmente bem-sucedida do CD: Zwa Sternlan ou "duas estrelas". Diz mais ou menos o seguinte: duas estrelas no céu brilham; de manhã, quando o sol nasce, elas desaparecem, mas nos pertencem; temos de ir embora; toda a beleza deste mundo existia só por causa do amor que eu tinha. O quarteto vocal abre; em seguida, intervenções belíssimas das flautas vienenses. Aos 8 minutos irrompe o sax-alto de Puschnig. O pulso rítmico regular só entra depois dos 10 minutos. Pouco antes dos 13 minutos, o violino de Feldman constrói música refinadíssima acompanhado apenas pelo contrabaixo de Richmond. Com direito até a uma cadência incrível. A coda reúne todos os instrumentos. Um deslumbramento. As canções vão se sucedendo e nossos ouvidos ficam cada vez mais imantados pela qualidade musical dessa música ancestral.

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