Dois mitos entre o público e o privado

A francesa Lilly Marcou e a americana Mary Gabriel traçam com equilíbrio as trajetórias de Joseph Stálin e Karl Marx

Elias Thomé Saliba, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2013 | 22h00

Toda biografia é a narrativa possível de uma vida - ou de várias vidas, já que todas elas se desenvolvem numa espiral de quebras temporais, azares da fortuna mas, sobretudo, de um futuro do passado que se projeta muito além das meras datas de nascimento e morte. Foi desbancando a narrativa centrada apenas no caráter exemplar do personagem (erigido em herói, santo, vítima ou carrasco) - conforme exigiam aquelas memórias que só sobrevivem à custa de monumentos - que a reviravolta historiográfica das últimas décadas alterou de vez a escrita biográfica. Tudo isso pode ser conferido em uma dupla de lançamentos recentes, que se atrevem a invadir dois autênticos vespeiros biográficos: A Vida Privada de Stálin, de Lilly Marcou, e Amor & Capital: A Saga Familiar de Karl Marx e a História de Uma Revolução, de Mary Gabriel.

O primeiro vespeiro é a biografia de Stálin. Como ele mesmo escondeu ou destruiu a maioria das fontes - incluindo as fontes do seu passado anterior a 1917 -, a febre editorial de biógrafos apressados apenas carreou água para o moinho da imaginação mórbida e desenfreada. O exagero foi tamanho que, nos anos 1980, historiadores e biógrafos chegaram a aplicar a lógica geométrica dos fractais para explicar o encadeamento dos eventos cruéis na trajetória de Stálin. John L. Gaddis, historiador especializado na guerra fria, chegou a definir a vida de Stálin como uma geometria fractal do horror.

Felizmente, este não é o caso da historiadora francesa, de origem romena, Lilly Marcou - que virou e revirou arquivos abertos logo após a Perestroika durante mais de 30 anos, reunindo ainda depoimentos e entrevistas com familiares e pessoas próximas a Stálin que tiveram a sorte de sobreviver aos expurgos. Embora não seja tão bem documentada quanto O Jovem Stálin de Simon Sebag Montefiore (Companhia das Letras) - o qual, por sua vez, diga-se, menospreza bastante a história política -, é das mais equilibradas e abrangentes biografias da vida privada de Stálin. Filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Ióssif Djugachvili (o sobrenome Stálin viria depois) começou estudando Teologia para logo se converter ao marxismo e engajar-se nos movimentos clandestinos que procuravam minar o czarismo. Até completar 35 anos, viveu quase toda a sua juventude entre as prisões e o exílio, envolvido em ações violentas, assaltos a bancos e longos meses de prisões na Sibéria -, que o transformaram num homem irascível, ardiloso -, mas também culto, poliglota, autodidata e visto como alguém ponderado. Ele sabia disfarçar bem, e conseguiu - pelo menos até o fim da década de 20, quando perdeu totalmente tais qualidades, arrancando todos os disfarces.

Sincronizando o privado e o público, Marcou é hábil em documentar toda a trajetória de Stálin. Sem ser ainda, em 1928-29, o ditador que reinaria mediante o terror entre 1936 e 1939 e no período subsequente, Stálin avançava de forma inelutável para um poder quase absoluto, enquanto sua vida privada se deteriorava rapidamente. Sociável, afável com crianças e excelente cantor, Stálin era um amante de rosas e jardins, mas ao mesmo tempo um infeliz que arruinou todas as suas relações de amor em razão da política. A autora considera difícil datar o momento da ruptura, embora o suicídio de sua segunda mulher, Nadejda, em 1931, seja apontado como o evento deflagrador. A partir daí, a vida privada de Stálin vai minguando, até desaparecer por completo, demonstrando uma dificuldade doentia em manter relações até mesmo com sua família mais próxima. Ao revelar muitos dos ignóbeis segredos da vida privada de Stálin, Marcou nunca deixa em segundo plano as responsabilidades do personagem pelos milhares de mortos dos quais foi culpado, unindo com serenidade e equilíbrio as duas pontas das vidas privada e pública de Stálin.

Ainda mais urdido que o de Stálin é o vespeiro das biografias de Marx: de um lado, narraram sua vida igualando-o a um quase Messias, um santo laico que iria salvar o mundo das injustiças; de outro, satanizaram-no de tal forma que, tivesse ele vivido mais alguns anos, certamente seria apontado como principal suspeito dos crimes de Jack, o estripador. Durante o período da guerra fria e mesmo depois da queda do Muro de Berlim, a biografia de Marx transformou-se num autêntico campo de batalha ideológico entre o Leste e o Oeste. O que inspirou a americana Mary Gabriel - e talvez seja este o grande diferencial do seu livro - foi o fato de que não apenas Marx viveu intensamente colado aos acontecimentos de sua época, mas toda a sua família, que se viu transformada num sismógrafo atento e nervoso da história mundial entre 1818 (nascimento de Marx) e 1911 (ano da morte, por suicídio, da filha de Marx, Laura Lafargue). A pesquisadora leu mais de 700 cartas - muitas delas inéditas em língua inglesa - escritas tanto pela prolífica família Marx, quanto pelos inúmeros personagens que se associaram à sua triste história. Caracterizadas pelo tom confessional ou íntimo, quando não inteiramente vazadas na incontinência verbal, as cartas - sumarizadas em capítulos minuciosos, seguindo a ordem cronológica - possibilitam ao leitor quase ouvir (ou espiar pelo buraco da fechadura) os diversos personagens falando uns com os outros, conforme os acontecimentos decisivos se desenrolavam à sua volta. Das revoluções de 1848 à Comuna de Paris, das Exposições Mundiais à vida cotidiana dos trabalhadores na época da Revolução Industrial - tudo é muito bem detalhado, rigoroso e preciso - em texto que se lê quase como um roteiro de filme - um daqueles épicos de longuíssima metragem.

Descendente de uma família de rabinos, Marx resultou de uma encruzilhada de culturas conflitantes: nascido num lar judaico, depois convertido em luterano, numa cidade extremamente católica, criado por um pai e ensinado por um mentor, que eram súditos da Coroa prussiana - mas que admiravam secretamente os filósofos franceses de linhagem mais radical, ou seja, os socialistas. Marx ficaria famoso por escrever sobre economia, mas não a praticá-la em casa; brilhante para pensar o futuro em termos do socialismo, mas, péssimo para pensar o futuro das próprias finanças. Perseguido pelas polícias de todas as nações - quando não pelos seus impiedosos credores -, Marx nunca teve um emprego ou renda fixa por mais do que dois anos, sua vida familiar foi de crônica miséria e tristeza: perdeu três filhos ainda jovens, sofreu dores horríveis dos furúnculos, da doença hepática e dos pulmões - e ainda se constrangeu por longos anos com seu amigo Engels - que não somente bancou todas as suas dívidas, como também assumiu como seu o filho - Frederick -, que Marx teve com Helena Demuth. (O fato documentado veio a público apenas em 1962, embora as filhas de Marx - Laura e Eleanor - já soubessem.)

Na vida pessoal, Marx era caloroso e geralmente descrito como excelente companhia e grande contador de histórias. Quando não atuou como um agitador enraivecido, passou grande parte de sua vida no silêncio erudito do salão de leitura do Museu Britânico, declarando-se o mais feliz dos homens com seus livros, que ele chamava de "seus escravos". Já em público era um debatedor brilhante, intelectualmente arrogante e impaciente com qualquer pessoa que discordasse dele. Era difícil, para quem não o conhecia, enxergar a diferença entre a completa certeza de si mesmo e a arrogância. Demonstrava pouco interesse em ser amado, ou mesmo apreciado. Ao contrário de todos aqueles amados rebeldes românticos de sua geração - o italiano Giuseppe Mazzini ou o húngaro Joseph Kossuth -, Marx virou alvo conveniente para acusações e intrigas, na maioria das vezes não tanto por suas crenças, mas graças ao seu temperamento áspero.

Amor & Capital coleciona momentos narrativos soberbos e envolventes nos quais os conceitos da obra se relacionam intensamente com eventos e emoções da própria vida de Marx, transmutando-se em lúcidas observações autobiográficas: todo trabalho é sofrimento, pois ele sempre cria algo que está fadado a separar-se do seu autor. Marx também sentiu, toda a sua vida, imensa dificuldade de separar-se de qualquer texto e dá-lo por concluído. "Não tenho tempo para escrever livros curtos" - esta irônica observação, atribuída a ele, pode ser vista como um clarão autoderrisório das suas dificuldades de escrever. Cumprir os prazos de contratos com os editores era um flagelo - ele jamais cumpriu um prazo ou terminou um serviço no tempo estipulado, com exceção do Manifesto Comunista -, mas mesmo este acabou saindo tarde demais para ter impacto sobre as revoltas sociais de 1848. A Guerra Civil na França, que pretendia coincidir com a Comuna de Paris em 1870, só veio a público quando o movimento havia terminado. Sua previsão, de que o primeiro volume de O Capital estaria pronto em 1851 (seria uma resposta ao triunfo capitalista exposto na Primeira Exposição Mundial, que Marx visitou como repórter credenciado), saiu com 16 anos de atraso. O problema não era falta de iniciativa, mas sua mente inquisitiva, colada aos acontecimentos da história imediata.

Entre tantos retratos fascinantes, o mais notável de todo o livro é, de longe, o de Jenny, mulher de Marx. Com base nas suas cartas, sua autobiografia inacabada e o testemunho de amigos, Mary Gabriel - que participará da XVI Bienal Rio - consegue reconstituir a admirável figura de Jenny. Sua dedicação era tanta que ela lembra às vezes uma personagem dos romances mais lacrimosos de Victor Hugo. Incapaz de distinguir a obra da vida de Marx da própria vida, Jenny foi não apenas sua amiga e amante ou aquela que tornava legíveis seus rascunhos -, mas transformou-se na sua autêntica caixa de ressonância intelectual. Essa mulher estoica que conheceu uma vida inteira de esperanças interrompidas e sonhos despedaçados, só demonstrou perder a paciência quando completou 54 anos, após contrair varíola e o luto pela morte do terceiro filho.

Em 1887, quatro anos depois da morte de Marx, a nova edição inglesa de O Capital, emplacou, em apenas um ano, a marca de 5 mil exemplares vendidos nos Estados Unidos. Mas o efêmero sucesso foi devido à penetrante propaganda do editor junto aos profissionais das finanças, que anunciou o livro como um "fabuloso método de fazer fortuna no sistema bancário!". Entre inúmeros, esse foi apenas um pitoresco exemplo da mais formidável trajetória de equívocos associados a uma obra que talvez tenha sido a mais calamitosamente mal interpretada de todos os tempos. Mas nem sempre foi assim: em 1881, Marx leu para Jenny uma nota num jornal inglês que dizia que O Capital "encarna uma doutrina econômica comparável, por seu caráter revolucionário, ao sistema de Copérnico em Astronomia, ou à lei da gravitação da mecânica". Os olhos de Jenny brilharam com uma última luminosidade de entusiasmo e ela morreu, dois dias depois, com 67 anos. Alegria efêmera de quem finalmente vislumbrava os dias futuros, nos quais os escritos de Marx talvez pudessem mudar o mundo. Ou que, pelo menos, seu marido fosse reconhecido na posteridade como um clássico, quem sabe se naquela acepção dada por Italo Calvino: "Aquele que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer".

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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