Dois milênios de história judaica revistos

Shlomo Sand, pesquisador da Universidade de Tel-Aviv, discute o conceito de Terra de Israel, central ao sionismo

Luis S. Krausz, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2014 | 20h06

Em A Invenção do Povo Judeu, publicado em 2011, o historiador israelense e professor da Universidade de Tel Aviv Shlomo Sand questionou a unidade étnica do povo judeu, fundamentando-se na argumentação de que os judeus formam um grupo heterogêneo de etnias originárias de diferentes reinos que, ao longo da história, se converteram ao judaísmo. Agora, chega ao público A Invenção da Terra de Israel, volume no qual ele analisa o surgimento deste conceito central à ideologia sionista, contrapondo o anseio milenar dos seguidores da fé judaica pelo retorno a Jerusalém à instrumentalização desse valor religioso por um estado nacional moderno, situado num território que não coincide inteiramente com o dos antigos reinos de Judá e Israel, e que tem ignorado, de maneira sistemática, os direitos de uma população ali radicada há séculos.

Sand nunca questiona o direito dos judeus israelenses de viverem no Estado de Israel. Afinal, se a unidade étnica, religiosa e nacional dos judeus é discutível, em nenhum dos episódios de perseguição aos judeus, seja durante a Idade Média, seja sob a Inquisição, seja na Rússia czarista, na Alemanha nazista ou sob Stalin, perguntou-se aos judeus se eles viam a si mesmos como um povo, uma nação ou um grupo religioso antes de assassiná-los.

Tampouco nega os fortes e ancestrais vínculos que ligam Sião a todos os praticantes da fé judaica. Mas seu estudo demonstra que o sionismo, que surge na passagem do século 19 para o século 20 como um movimento de caráter abertamente antirreligioso, incorporou e transformou o anseio pela Jerusalém celestial da tradição num ímpeto nacionalista, oposto às doutrinas religiosas cristalizadas nas diásporas judaicas da Europa e da Ásia, segundo as quais o retorno a Jerusalém deveria dar-se por uma via messiânica - e não por meio da ação política e militar. Pois esta ligação com a terra está condicionada, segundo a teologia bíblica, aos termos de uma aliança que impõe sobre a totalidade do povo o cumprimento dos mandamentos da Torá e a terra adquire, neste contexto, um significado espiritual inerente, que se perde de vista no âmbito nacionalista.

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Sand indica, também, o fato de que a ideologia sionista nunca foi majoritária entre os emigrantes judeus da Europa Oriental que, a partir de 1881, passaram a ser perseguidos pela onda de pogroms que varreu a região até depois da Primeira Guerra Mundial, nem entre os que fugiram da perseguição nazista a partir da década de 1930. Demonstra igualmente que, ao longo dos milênios de existência das diásporas judaicas, muito embora fosse facultado ao judeus viajar e mesmo radicar-se em Jerusalém, as jornadas à cidade foram sempre práticas marginais, e o núcleo populacional ali presente, diminuto.

Se o discurso nacionalista ganhou espaço ante a atrofia da religião na Europa a partir do século 19, ele apropriou-se de valores, símbolos e rituais provenientes da religião, transformando o conceito messiânico de redenção em conquista de uma pátria geográfica, sob influência de ideais características do século 19 europeu e da "primavera dos povos".Uma concepção moderna de pátria, portanto, tributária das ideias do Iluminismo, passou a mobilizar as massas fazendo do patriotismo um substituto da consciência religiosa.

Fundamentado numa multiplicidade estonteante de fontes que passam em revista os últimos 2.000 anos de história judaica - o que por si só já bastaria para tornar o livro altamente recomendável - Sand chama a atenção para o poder e para a importância das narrativas e dos discursos na formação das consciências individuais e coletivas. Demonstra com clareza que o conceito de pátria não faz parte das concepções bíblicas de terra prometida, nem das reflexões dos sábios do Talmude e da Michná, e destaca que as ambivalências desde sempre foram inerentes a uma condição judaica dividida entre os vínculos com as terras de nascimento e o lugar dos anseios messiânicos - questão que vem sendo exaustivamente discutida desde os tempos de Fílon de Alexandria. Estabelece-se, assim, uma distinção clara entre a pátria e o "país celestial", distinção esta que, com a criação do Estado de Israel, tentou-se abolir.

Não é preciso concordar com tudo o que escreve Sand para considerar este um livro fascinante. Sua leitura ilumina as fronteiras que separam o judaísmo do nacionalismo, tanto historicamente quanto na atualidade, ao mesmo tempo em que aponta para uma revalorização das diásporas judaicas, que tendem a ser desprezadas pelo sionismo.

Outro dos seus méritos indiscutíveis é desfazer o embaralhamento de conceitos que dificulta a única solução possível para o persistente conflito árabe-israelense: o estabelecimento de uma realidade política que contemple os direitos de todos os habitantes do Estado de Israel e de suas adjacências.

LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA NA USP

A INVENÇÃO DA TERRA DE ISRAEL

Autor: Shlomo Sand

Tradução: Lúcia Brito

Editora: Benvirá (370 págs., R$ 47,50)

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